terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A anticandidatura Plínio de Arruda Sampaio e a miséria da estratégia

Já faz uma boa quantidade de anos que o historiador marxista britânico Perry Anderson, ao fazer a crítica às limitações do “marxismo ocidental” apontou como principal elemento destas limitações o abandono da elaboração das questões relativas à estratégia no campo de preocupações intelectuais dos estudiosos compreendidos sob aquela definição de marxismo ocidental.

Sem desconsiderar as enormes diferenças que existem entre o panorama dominante no campo da intelectualidade marxista brasileira contemporânea e aquele quadro analisado por Anderson na Europa, é possível afirmar que por aqui também a fragilidade, ou quase inexistência, de uma reflexão sistemática a respeito da estratégia de construção socialista entre nossos intelectuais marxistas tem levado, no atual contexto, a uma espécie de postura retardatária em relação à dinâmica da realidade política.

Entendo correto pôr de lado nesta análise aquele setor do campo marxista que assume uma postura dita “principista” e que, na verdade, consiste apenas em fazer a exegese de textos de autores clássicos do marxismo e tentar dotar sua orientação política da legitimidade supostamente conferida pelo princípio da autoridade imanente a estes autores. Setor este minoritário, mas suficientemente representativo para exercer algum nível de pressão sobre o conjunto do campo intelectual marxista, estes “principistas” acabam por se chocar diretamente contra o mais básico fundamento do pensamento marxista: a dialética materialista.

Desconsiderando o setor anteriormente mencionado, é possível dividir hoje o campo da intelectualidade marxista no país em dois grandes grupos: aqueles que adotam uma posição de sustentação política do governo Lula (estando ou não nos partidos da base de apoio governista) e aqueles que se mantém na oposição de esquerda ao governo Lula (majoritariamente reunidos no PSOL). Apesar de opostos por esta diferença política fundamental, a maior parte dos intelectuais destes dois grupos guardam entre si uma mesma característica: a ausência de iniciativa na formulação relativa à estratégia política de construção do socialismo e, conseqüentemente, uma postura seguidista pouco refletida em relação à dinâmica da conjuntura.

A maior parte dos intelectuais marxistas que se encontram na base de apoio ao governo Lula se esforça profundamente para tentar dotar a conversão deste governo aos interesses do grande capital de sentido teórico-prático coerente com as formulações da tradição marxista. Nos dias que correm um “novo-desenvolvimentismo” que associa elementos progressistas (como a orientação de administrar o câmbio e regular os movimentos de capital) com elementos ultra-reacionários (como estimular a subordinação do desenvolvimento à “burguesia nacional” e impulsionar a privatização de serviços públicos tidos como não-fundamentais) é o horizonte político e estratégico máximo deste grupo em questão.

Os intelectuais marxistas, por outro lado, que se encontram hoje em uma postura de oposição de esquerda ao governo Lula estão majoritariamente organizados no PSOL ou são do partido simpatizantes. Deste grupo, a maior parte é reconhecida nacional e/ou internacionalmente por grandes contribuições teóricas e analíticas, no entanto, os elementos de estratégia não figuram, de modo geral, entre os temas abordados por seus trabalhos. Diante da adaptação definitiva de Lula e do PT à ordem do capital, grande parte destes intelectuais mencionados acima mergulharam em uma certa desorientação que os levou ao refúgio, tido como seguro, em uma posição, no mais das vezes, ultra-esquerdista. A conjuntura passou a afigurar-se para eles como plena de obstáculos e limites e carente, de um modo quase absoluto, de oportunidades políticas e estratégicas para os socialistas.

No momento mesmo em que o PSOL precisa garantir sua consolidação como alternativa política de esquerda, socialista e democrática à capitulação do PT e de Lula aos limites políticos impostos pelo grande capital e também, obviamente, aos próprios representantes intransigentes da ortodoxia neoliberal expressa no bloco PSDB-PFL (vulgo DEM), os intelectuais do PSOL, orgânicos ou não, se mostram plenamente incapazes de pensar o socialismo como uma força viva na sociedade, que para triunfar precisa levar em conta – como fizeram todas as grandes personalidades do marxismo na história – a correlação de forças real estabelecida na sociedade, as condições objetivas e subjetivas em que se desenrola a luta política contra as forças da ordem, a justa relação entre o momento nacional e o momento internacional, ou seja, todos os aspectos fundamentais que devem ser considerados para que se estabeleça de modo sério, correto e conseqüente as linhas de atuação política do partido dos socialistas, ou ao menos, do mais representativo entre eles.

A ausência de uma reflexão estratégica por parte da ampla maioria de nossa intelectualidade marxista contemporânea leva a que incorpore como concepção política um seguidismo irrefletido, seja tendendo ao alinhamento automático ao governo Lula, seja tendendo a uma adesão mais ou menos entusiasmada a um certo maximalismo relativamente dogmático, esquemático e ultra-esquerdista que, na atual conjuntura é representado pela pré-candidatura de Plínio de Arruda Sampaio nos quadros do PSOL, que tende a impor um retrocesso em todo o acúmulo político realizado pelo partido desde a sua fundação.

Sintomaticamente, dentro do PSOL, a pré-candidatura que aparece baseada em uma clara e profunda reflexão estratégica sobre o Brasil, o continente e o mundo contemporâneos, sobre a correlação de forças concretas imposta ao país, sobre os limites e possibilidades colocados à política socialista, é a pré-candidatura de Martiniano Cavalcante, quadro histórico dos movimentos populares, fundador do PSOL e presidente da regional goiana do partido. Esta pré-candidatura tem recebido o desprezo e mesmo uma hostil oposição por parte daquela intelectualidade acima mencionada, sendo impulsionada, por outro lado, por muitas das principais lideranças políticas do partido, entre elas, a deputada federal Luciana Genro e a nossa presidenta Heloísa Helena. A conferência eleitoral do PSOL, que decidirá o candidato do partido à presidência da república, mostrará muito daquilo que se pode esperar para os próximos anos no que se refere ao pensamento e a prática do socialismo no Brasil.

8 comentários:

Arthur Souza disse...

A miséria da crítica infundada, ou a critica se dá na politica, e não na linguaguem refinada de pouco conteúdo.

Em um texto relativamente bem formulado, são citados algums preceitos históricos que começam a apontar para uma crítica, sendo que no momento da mesma, é esvaziado todo conteudo político do debate e de uma forma determinista, tecendo insultos que não passam de avaliações pessoais pouco embasadas e sem nenhuma concreticidade.

Ao invés de desperdiçar tempo com ataques sem alvo, (a pre-candidatura do plínio em nada se abalou com tanta desverdade escrita em um espaço com tão pouca visibilidade) porque não foi escrito sobre a tal reflexão estratégia ao socialismo que segundo aquela defesa seria representada pela candidatura de Martiniano?

Aproveito para também desmascarar a grande inverdade que é a de que a candidatura de Martiniano estaria sendo depreciada por militantes da candidatura de Plínio. Quem assistir os vídeos do debate do Rio de Janeiro irá constatar que é justamente o contrário.

Termino dizendo que o que "tende a impor um retrocesso em todo o acúmulo político realizado pelo partido desde a sua fundação" é justamente o desrespeito aos marcos fundacionais do partido.
Como por exemplo foram adotadas alianças fora do campo da esquerda (pv psb), financiamento de multinacionais (gerdau, tauros) e também com a adoção de critérios conferências que não tem acordo com a concepção de partido militante, organizado em núcleos.

vanguarda popular ridícula disse...

é, pelo jeito continuaremos sem parceiros importantes no campo da esquerda.

"marcos fundamentais", que catzo é isso?

é alguma padronização de práxis política?

alguma marca que distingue puros de impuros?

pelamordedeus, vocês estão em que planeta?

depois se queixam das alianças feitas pelo PT. Mas como levar a sério um idiota desses, meu caro Maycon?

É esse o debate que está acontecendo no PSOL?

Em pouco tempo a convenção(encontros, ou o diabo que o valha)caberá em uma Kombi, incluindo a imprensa.

Anônimo disse...

Sou simpatizante do Psol, voto somente nos candidatos no Psol, mas acredito que para ganhar eleições para o executivo o partido precisa de muito mais, pois vai precisar de outras camadas de voto, principalmente os alienados e os ignorantes (sem conhecimentos).
O Psol precisa chegar mais perto do povo, falar mais a sua língua...

adoplh hitler. disse...

pronto, Tio Maaycon, agora o caldo entornou de vez, pois veja:

"(...)pois vai precisar de outras camadas de voto, principalmente os alienados e os ignorantes (sem conhecimentos)."

se alguém tinha dúvida da arrogância iluminada dos militantes e simpatizantes do psol, agora não tem mais.

pobres almas, não sabem que essa tese de menosprezar o saber popular e suas escolhas, calcadas em preconceitos de classe, e na hipótese de que baixa escolaridade produz decisões piores, é justamente, por mais irônico que pareça, o mesmo discurso utilizado pela direita para "tutelar" os interesses populares em uma democracia "sem povo".

não esqueça o comentarista que é da classe média letrada, e da elite que tem brotado o pior discurso que sustenta a plataforma política e ideológica dos demotucanos.

enquanto isso, o povo segue aprofundando as opções progressistas.

é Tio Maycon, voce vai ter muiiiiito trabaalho.

Anônimo disse...

Ao hitler,
Ninguém disse que os militantes e simpatizantes do Psol são melhores do que ninguém ou são iluminados. Não coloque palavras no discurso dos outros para justificar suas teses...
E mais, o Psol tem pleno conhecimento de que "menosprezar o saber popular e suas escolhas" é puro "preconceito de classe" e que esse é um "discurso utilizado pela direita para tutelar os interesses populares em uma democracia sem povo".
Apenas foi dito que para o Psol melhorar sua performace eleitoral, e conseguir votos em grupos (todos) diferentes da sociedade, será necessário melhorar o seu discurso, portanto, o Psol não é melhor do que ninguém, pelo contrário, ainda está "devendo", tem que melhorar muito ainda para se amadurecer como um partido grande. Se o partido (Psol) não consegue falar a língua do povo, o erro não é do povo, mas sim do partido, e essa foi a idéia que se tentou passar para o Maycon.
O Psol não menospreza a sabedoria popular, pelo contrário, se o "hitler" conhecesse os mandatos do Chico Alencar e Marcelo Freixo, saberia do que estou dizendo, no entanto, apesar do trabalho dos parlamentares citados, ainda temos muito a fazer, pois lutamos contra todo um sistema.
Assim, o Psol tem que crescer e falar a língua de toda a população e não apenas de grupos restritos da sociedade.
Tenho certeza que o Psol vai crescer, amadurecer e chegar ao poder, e sem precisar se aliar ao Sarney e nem confiar um "cheque em branco" ao Roberto Jéferson.
Abs,
Gabriel

Herman Göering disse...

Caro Gabriel,

Eu só falei aquilo que li. Não é minha culpa se você escreveu diferente do que pensou, pois repito:

"(...)principalmente os alienados e os ignorantes (sem conhecimentos)."

ué, se você não emitiu um juízo de valor sobre esses eleitores, o que você fez então?

ou será que esses "eleitores" não existem, dentro de sua lógica(?)?

não fui eu que pus palavras em seu discurso, você é que fez, e ao que parece, não sabe bem o que quer dizer, ou sabe, e quer nos enganar.

bem, eu conheço o mandato dos parlamentares.

o marcelo freixo(ou seria frouxo?)tem uma lenga-lenga de direitos humanos que fica restrita ao denuncismo dos abusos da polícia(o que é até correto), mas não evolui para atingir as causas do problema(abusos), ou porque não onde estão essas causas, ou porque sabe e, tem medo de tocá-las.

não vi o marcelo frouxo propor o fim do fórum privilegiado para deputados estaduais, ou esse privilégio não é um abuso de dieritos humanos para quem não goza deles. Impunidade não é abuso?

pois é, também não vi o nobre deputado propor nenhuma política séria de valorização e reconhecimento das polícias, como forma de evitar que policiais cometam abusos no exercício da função.

e por aí vai, meu caro.

já o chico "bento" alencar, como o próprio apelido já disse, parece um deputado paroquial, que só repercute em seu mandato a cantilena neoudenista, fazendo coro com arthur virgilio, acm neto e outros "vestais", com passado igual ou pior aos aliados do governo lula citados por você.

perguntinha pragmática:

se o candidato do psol ganhasse a eleição e tivesse 40 deputados, e o resto da câmara e senado fosse do calibre de saney e cia, o que vocês fariam?

1. fechariam o congresso?
2. armariam a população e instauravam a ditadura do proletariado?
3. tiravam passaporte para esperar o golpe?
4. fariam acordos e trairiam a revolução?


vai "nanar" Garbriel, que já tá na hora de criança dormir, meu filho.

Anônimo disse...

http://www.lutamarxista.org/artigos/nacional/textosnacional/dezmotivos.html

Anônimo disse...

http://www.lutamarxista.org/artigos/nacional/textosnacional/dezmotivos.html