A grande votação recebida pela candidatura de Marina Silva à presidência da república, próximo aos vinte milhões de votos, surpreendeu à esmagadora maioria dos analistas políticos, estivessem estes à esquerda ou à direita do espectro político. Logo após a divulgação dos resultados eleitorais do primeiro turno, no calor dos embates políticos e, principalmente, na atmosfera da frustração pelo fato de o quadro não haver possibilitado uma vitória da candidatura Dilma Roussef no primeiro turno, a maior parte dos intelectuais e militantes da centro-esquerda e da esquerda brasileira – incluo-me neste conjunto – passou a sentir pelo fenômeno da “onda verde” um misto de indignação e asco pelo que apressadaamente foi caracterizado, de modo simplista, como uma conjugação entre votos reacionários do fundamentalismo cristão (evangélico, principalmente) e votos irresponsavelmente “pós-modernos” de uma classe média esnobe e insensível aos reais dramas sociais brasileiros.
Passado já um número mais significativo de horas, me parece ser o momento para retomar a razão e partir para uma análise um pouco menos simplista do fenômeno eleitoral representado pela candidatura Marina em sua complexidade real. Na verdade, o objetivo aqui neste pequeno texto é tentar encontrar neste fenômeno da “onda verde” alguns ensinamentos que possam ser úteis aos próximos passos do PSOL em sua trajetória política. Isto se torna ainda mais necessário em função da profunda reflexão que deverá ser feita nos quadros partidários após o choque de realidade que os números eleitorais devem dar ao nosso pequeno partido socialista.
Em primeiro lugar, já não é muita novidade afirmar que o eleitorado de Marina se constituiu a partir da confluência de expectativas, vontades e idéias as mais distintas entre si. Ambientalistas, evangélicos, direitistas frustrados com Serra, centro-esquerdistas com rejeição a Dilma, jovens pós-modernos de classe média e, principalmente para o que me interessa agora, os “esquerdistas da ética” formam, em seu conjunto, os participantes da “onda verde” de Marina. Esta última fatia do eleitorado que depositou sua esperança no projeto apresentado pela ex-senadora do Acre é justamente aquela com a qual o PSOL dialogou desde sua fundação, e mais, ainda dialoga, é o bastante ver as estrondosas votações recebidas pelas candidaturas de Chico Alencar e Marcelo Freixo no Rio de Janeiro (respectivamente para deputado federal e estadual), pela candidatura de Toninho do PSOL ao governo do DF e pela candidatura de Randolfe Rodrigues ao Senado pelo Amapá. Que ninguém tenha dúvida de que, em grande medida, os eleitores destes quadros psolistas votaram, simultaneamente, em Marina para presidente.
A opção destes “esquerdistas da ética” (eleitores que compreendem que a bandeira da ética na política deve ocupar um lugar de primeira grandeza ou até mesmo de preponderância entre outras bandeiras socialmente progressistas) pela candidatura Marina Silva traz alguns elementos importantes para a reflexão. Em 2006 este eleitorado certamente esteve com o PSOL e Heloisa Helena na sua indignação acesa contra a corrupção instalada no seio do governo petista e contra o abandono quase geral de qualquer fisionomia progressista pelo governo Lula em seu primeiro mandato. Em 2010 o quadro se altera sensivelmente, em primeiro lugar pela ausência de Heloisa Helena na disputa presidencial. Em segundo lugar, pelo fato de que o conteúdo doutrinário e ultimatista e a forma caricata e jocosa da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio pelo PSOL foi absolutamente incapaz de atrair a mais mínima confiança do eleitorado em questão, garantindo a eles, no máximo, boas risadas nos debates televisivos. Por último, alguns aspectos centrais no discurso de Marina Silva criaram as condições para que este eleitorado encontrasse em sua candidatura a representação mais adequada de seu ponto de vista nas atuais condições.
O que em Marina Silva atraiu para si aquele eleitorado que, no âmbito da disputa presidencial, foi do PSOL em 2006? Talvez o mais importante tenha sido a conjugação da preservação de um simbolismo popular de esquerda, a idéia de construção de um modelo de desenvolvimento para o país sobre bases renovadoras, a ênfase em uma postura simbólica baseada na ética na política e, de modo algum menos importante, um reconhecimento explícito dos significativos progressos experimentados pelo país (e sentidos pelo povo) nos últimos anos (em especial, no segundo governo Lula) e a predisposição para aprofundá-los corrigindo os erros e falhas. Marina fala em dar continuidade aos últimos dezesseis anos (FHC e Lula) levando o processo de avanço social adiante sem negligenciar os problemas manifestos e, por sua parte, o eleitorado formado pelos “esquerdistas da ética” capta sua abertura ao reconhecimento dos avanços do processo em curso com a manutenção simultânea do ímpeto em aprofundar a reforma social com a intransigência na defesa da ética na política.
A escolha de um eleitorado de esquerda por Marina – que poderia ser ainda maior se a candidatura em questão fosse menos contraditória – deixa claro que os êxitos do governo de centro-esquerda petista não são uma derrota para quem postula se situar á sua esquerda (ou que assim se pareça ao eleitorado, como no caso de Marina), desde que a esquerda que queira disputar esta massa saiba se posicionar corretamente frente ao governo e a seus êxitos. O reconhecimento dos avanços promovidos pela centro-esquerda no poder com o apontamento de seus limites é o caminho para o redirecionamento do PSOL no sentido de voltar a se postular como alternativa de governo ao povo brasileiro. Já passou da hora de romper com o sectarismo anti-PT que caracterizou os primeiros anos de existência do PSOL. O povo brasileiro precisa e anseia por uma esquerda menos visceral e mais racional, uma esquerda menos denuncista e mais propositiva, uma esquerda menos intransigente e mais aberta ao diálogo com o conjunto dos setores mais ou menos progressistas da sociedade brasileira. A melhor prova disto é o fato de que as mais expressivas vitórias eleitorais do PSOL nestas eleições foram aquelas que se deveram a uma maior aproximação destes princípios.
terça-feira, 5 de outubro de 2010
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2 comentários:
Se e PSoL conseguir se organizar em vista deste desafio eu me animo a tomar parte de algum modo. Precisamos de uma crítica política de esquerda que seja capaz de mobilizacao efetiva no curso de nossa vida política nacional. É isto ou logo a hegemonia de centro esquerda vai dar lugar a uma de centro direita, pendendo para o neo-con.
Belo texto Maycon,
um abraco
Valeu Roberto, mas em relação ao PSOL eu estou seguindo Gramsci: "pessimismo da razão, otimismo da vontade". Abração!
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