sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Autoridade e educação

Um importante tema na discussão educacional que se converteu nos últimos anos em verdadeiro tabu é aquele que diz respeito à relação entre a educação formal escolar e o princípio da autoridade. Não deve ser novidade para aqueles leitores mais atentos à dinâmica das transformações sociais brasileiras recentes que o período histórico atual tem como elemento impulsionador inicial o movimento contra a ditadura militar e pela democratização política. Neste amplo movimento estavam imbricados um projeto democrático-popular à esquerda, e um projeto neoliberal à direita. Não é necessário muito esforço argumentativo para convencer o leitor de que o segundo projeto saiu vitorioso e tornou-se hegemônico na sociedade, pelo menos até agora.


No campo da educação escolar podemos dizer que, em vários aspectos, ocorreu uma verdadeira fusão mórbida entre os projetos democrático-popular e neoliberal. Sendo um pouco mais preciso, é possível afirmar que o que ocorreu no campo educacional foi uma incorporação por parte dos defensores do princípio democrático-popular do espírito filosófico liberal, superficial e aparentemente progressista, mas verdadeiramente reacionário em seus pressupostos e em seus efeitos. Ouso dizer, preparando-me para uma dura polêmica, que o existencialismo cristão de Paulo Freire, e o quase-consenso que existe em torno dele, é o principal expoente deste amálgama bizarro.


Muitos princípios constituintes do Estatuto da Criança e do Adolescente, instrumentalizados por famílias inconseqüentes e por magistrados irresponsáveis, e legitimados por uma hegemonia liberal no pensamento social, tem contribuído para o agravamento da crise educacional contemporânea (especialmente, mas não exclusivamente, na rede privada de ensino). A pretensão de banir, por força da lei, os mais mínimos vestígios do princípio da autoridade no processo educacional escolar, sob o epíteto de “constrangimento ao aluno”, vai progressivamente inviabilizando a relação instrucional entre educador e educando, naturalmente uma relação que parte da desigualdade e tende à igualdade apenas no final. Este ponto de vista de defendo, encampado por pensadores insuspeitos de qualquer tendência autoritária como Hannah Arendt, precisa voltar ao debate público se quisermos apontar saídas concretas à crise da educação escolar presente.



Artigo publicado na edição de hoje do jornal Monitor Campista

2 comentários:

Professora Hilda Helena disse...

Excelente postagem!
É sempre interessante pensar constantemente sobre o clima político, o clima social, o clima cultural nos quais estamos trabalhando como educadores. Eu não creio em programas de alfabetização de adultos que sejam simplesmente organizados por alguns educadores em algum lugar e depois oferecidos para analfabetos em todo o país. Isso não funciona.E olha que há alguns anos trabalho como alfabetizadora de jovens e adultos...


A superação das práticas corporativas possibilitaria a formulação de uma nova cultura política, ultrapassando os marcos da tradição moderna, que distinguiu o indivíduo da esfera de gestão pública.
O debate, ligeiramente reproduzido acima, auxilia na compreensão da difícil escolha que organizações da sociedade civil parecem se encontrar. Um dilema que supera a falsa questão entre ser mais ou menos eficiente e eficaz. Trata-se de um posicionamento político, ideológico, a respeito das intenções da nova engenharia política, da nova institucionalidade pública a ser construída.


Aqui se explicita com nitidez a tensão política-educação libertadora. O educador encontra-se no fio da navalha justamente porque a sua sensibilidade e leitura da realidade e das relações que estabelece com a comunidade orientam os passos que, como educador, define para expressar sua crítica às práticas sociais que o incomodam. O cuidado tático não é um mero subterfúgio para convencer à mudança mas, na concepção freireana, para estabelecer um diálogo entre cidadãos iguais. Não é a crítica de um superior, mas o contraponto à realidade e valores da comunidade. Daí porque Paulo Freire afirmar, em dado momento, que o papel do educador é possibilitar os alunos a serem eles mesmos. Ao questionar como igual, o educador exige um posicionamento do educando, revela possíveis contradições, exige posicionamento frente à tradição. Em termos psicanalíticos, seria a tarefa de provocar a análise e a construir a autonomia possível do sujeito. Ao “se ver de fora”, o educando passa a se apropriar de suas motivações, ações e valores. Torna-se sujeito. Por este motivo Paulo Freire escreveu tantos textos destacando o ato de ad-mirar, ver-se de fora.

Esta leitura peculiar do papel da educação popular se espraiou por organizações populares, de assessoria à comunidades pobres, nas organizações confessionais mais progressistas (entre elas, a Igreja Católica e a Metodista), em segmentos do movimento sindical e alguns movimentos sociais. Esta tensão educacional foi constitutiva, inclusive, de certa crise de identidade de diversas pastorais sociais e organizações de apoio e assessoria a movimentos sociais quando, em meados dos anos 80, vários movimentos consolidaram suas próprias organizações. De movimento, passaram a organizações. A tensão provocada pelos educadores críticos havia gerado sujeitos políticos institucionalizados. Portanto, as práticas de educação popular e social começam a se alterar.

É necessario novos paradigmas ,impor a construção de uma nova metodologia de educação pública, herdeira das propostas de educação popular, mas mais ousada politicamente. Uma ousadia que parece ainda muito distante das práticas e formulações dos educadores brasileiros.

Roberto Torres disse...

Ótima análise! Debate muito interessante e importante... como leigo em Paulo Freire, vou tentar me guiar pela ótima explicacao da professora hilda helena e pelas questoes do Maycon. Minhas questoes sao as seguintes:

1) Admitindo-se que a concepcao de educacao emancipatória de Freire guiou organizacoes progressitas e na sua crise ajudou a constituir o amálgama com o projeto neoliberal, surge diretamente a questao de como a concepcao de freire desempenhou este papel ideológico em favor do modelo hegemonico.Embora eu nao conheca o autor diretamente, pelas categorias de analise levantadas pela professora heloisa arriscaria a seguinte crítica. Parece que a prática educional em que o educador conseguiria despertar ad-miracao no educando e incentivar e uma apropriacao dos próprios valores, motivacoes e acoes, no contexto das comunidades, está baseada num pressuposto politicamente correto que idealiza as "comunidades". O pressuposto em questao parece ser o de que haveria uma comunidade dos pobres, com valores próprios, os quais poderiam ser recuperados por uma atitude reflexiva incentivada pela educador. As tres partes do pressuposto parecem frageis e nao oferecem argumentos em favor de sua genese e existencia efetiva. Primeiro, "comunidade" dos pobres supoem um grau de solidariedade moral que efetivamente nao pode existir no contexto de privacao, onde o individualismo predatório se impoe face a face a estreiteza dos horizontes de vida e de futuro. Segundo, que possuir valores próprios implica em viver em condicoes das quais surgiram espacos para formular e institucionalizar valores. Os pobres precisam aderir a valores que nao nasceram em contexto de pobreza, no qual se vive a impossibilidade relativa de formular e espraiar valores autonomos. Terceiro, a atitude reflexiva, ao pressupor um processo de identificacoa entre educador e educado, fica também irreal porque o fracionamento de classe cria cada vez mais uma relacao de negacao mútua de reconhecimento entre professores humilhados obrigados a educar jovens destituídos das disposicoes de classe para o sucesso escolar. Claro, que isto nao significa a impossibilidade absoluta do sucesso escolar ou mesmo moral-emancipatório entre os pobres, mas sim uma impossibilidade relativa que a visao politicamente correta sobres os pobres nao tematiza. Parece, em resumo, que esta concepcao extremamente comprometida com transformacoes políticas na sociedade peca ao nao analisar as diposicoes de classe que fazem das supostas "comunidades" pobres um agregado de vidas sem futuro, produzidas na socializacao familiar precária.

2) A negacao da relacao assimétrica entre educador e educado, como efeito do modelo hegemonico, parece ceder de vez ao cinismo, e assumir que, já que nao ocorre o processo de distanciamento crítico, o ad-mirar que pressupem uma atitude reflexiva sobre a vida dificultada nos ambientes de extrema privacao, é melhor desistir de incomodar os alunos e deixá-los a vontade para reproduzir o comportamente socialmente condicionado que os leva para o caminho do fracasso.