terça-feira, 16 de novembro de 2010

A mídia e a agenda do novo governo

Segue abaixo texto redigido pelo historiador e militante de esquerda Gilberto Maringoni, a repseito do período que se abre com a eleição de Dilma Rousseff e o papel das grandes corporações midiáticas.

A mídia e a agenda do novo governo

Muito mais do que a candidatura José Serra e sua coalizão demotucana, a derrotada destas eleições foi a grande mídia. Ou o verdadeiro partido de oposição no Brasil. Não falamos aqui de intrincados conceitos gramscianos, mas das reflexões de Judith Brito, presidente da Associação Nacional dos Jornais (ANJ). Segundo ela, à falta de uma oposição estruturada no país, a imprensa deve cumprir tal papel. Não é à toa que sustentou José Serra desde o primeiro momento.

Pois a mídia brasileira, mesmo derrotada, não passa recibo. Já está de armas e bagagens empenhada no terceiro turno: a definição da agenda do governo Dilma.

Logo no domingo à noite, mal anunciados os resultados eleitorais, comentaristas revezavam-se diante de câmeras e microfones para alertar o país sobre a necessidade de um duro ajuste fiscal, de uma reforma da Previdência, de restrições a reajustes salariais e de redução da “gastança” governamental. Um saco de maldades estaria à caminho.

Iniciativa perdida

A imprensa brasileira tenta retomar a iniciativa política, perdida nos últimos anos. Apostou contra os interesses nacionais nos enfrentamentos que o Brasil teve na política externa, tentou desmoralizar o presidente da República e demonizar demandas populares. Ela está no seu direito. A novidade é que agora a mídia enfrenta não apenas uma disseminação infindável de pequenos concorrentes pela internet, mas uma repulsa nacional às diretrizes liberais e privatistas que apoiou em tempos recentes.

A imprensa é personagem das disputas políticas. Mais importante do que “fazer a cabeça das pessoas”, ela busca apontar os assuntos sobre os quais as pessoas devem pensar. Essa é a base da Teoria do Agendamento – ou “Agenda setting”, em bom português – formulada nos anos 1970 por dois pesquisadores norteamericanos, Maxwell Mc Combs e Donald Shaw. Funciona mais ou menos assim: uma hora é o mensalão, outra é o suposto caso do vazamento de dados, mais adiante são as polêmicas religiosas e por aí vai. São firulas do varejo político pré eleitoral. O que faziam anteriormente era estabelecer as normas do grande debate de rumos para o país.

O mecanismo funcionou bem até 2006. No primeiro mandato de Lula, com a inestimável colaboração de setores ultraliberais do governo, representados pelos ministros Antonio Palocci, Paulo Bernardo e pelo presidente do Banco Central, Henrique Meirelles, a mídia e os setores por ela articulados impuseram uma grande pauta continuísta. Com a situação de desarranjo geral na economia, legado pelo governo FHC, os meios de comunicação viram suas diretrizes vencerem ao longo de quase todo o primeiro quadriênio petista, a ponto de o ajuste fiscal realizado em 2003 ter sido o mais duro desde 1990.

Após a crise política de 2005 e com uma evidente melhoria no quadro internacional, dois postos-chave da administração pública foram mudados, a Fazenda e a Casa Civil. Assumiram suas cadeiras Guido Mantega e Dilma Rousseff. Aos poucos saiu de cena a pauta liberal e tomou corpo uma orientação desenvolvimentista, cujo primeiro esboço foram os maciços investimentos estatais sintetizados na primeira versão do PAC. Uma nova agenda então se consolidou, a do desenvolvimento.

Quem dá o tom

Agendas políticas não são estipuladas apenas pelos governos, mas fazem parte da disputa pela hegemonia na sociedade. Impõe agenda quem tem força e iniciativa política.

Assim, a pauta do início dos anos 1980 não foi obra da ditadura, que vivia seus estertores. A orientação democrática tomou corpo de fora para dentro do governo, pelos partidos de oposição e pelos movimentos sociais, que exigiam o fim do regime de exceção. Da mesma forma, na segunda metade daquela década, a discussão central tinha como eixo norteador a questão do Estado.

Os embates oriundos da sociedade se cristalizaram na Assembleia Constituinte, em 1988, após acirradas contendas realizadas na fase terminal dos governos militares e no epílogo do longo ciclo desenvolvimentista, observado entre 1930 e 1980.

A partir de 1990, com as vitórias de Fernando Collor e de Fernando Henrique, a agenda foi imposta a partir de cima. Com um país traumatizado por quase uma década de inflação descontrolada, a estabilidade ganhou o centro do palco, tendo como decorrência uma redefinição do papel do Estado, via privatizações e financeirização da economia.

A história posterior é conhecida. O modelo liberal se esgotou em 2005.

O desenvolvimentismo destes últimos cinco anos foi marcado por uma forte característica social. Na maior parte da América do Sul se deu algo semelhante. A erradicação da pobreza ganhou relevância.

Nova década

Qual seria uma agenda viável para esta nova década, que fortaleceria a organização da sociedade e suplantaria os interesses das elites, vocalizadas pela mídia?

Há várias. Um ponto parece ter maioria na coalizão da presidenta Dilma Rousseff: o desenvolvimento continua. Mas há um fator que precisa também estar no centro dos debates: o papel das comunicações em nossa sociedade.

A pergunta é: há possibilidade de o Brasil construir um projeto nacional e democrático de desenvolvimento com uma indústria midiática antidemocrática, elitista, excludente e monopolizada, que tenta se legitimar como esfera pública e lócus essencial da definição de rumos para o país?

As entidades populares, os partidos democráticos e incontáveis ativistas sociais já têm um ponto de partida para entrarem nessa conversa. Trata-se das resoluções da I Conferência Nacional de Comunicação, realizada em dezembro de 2009. Um tento histórico! Algumas das bandeiras lá definidas começam a se tornar realidade. Assembleias Legislativas de vários estados começam a construir Conselhos Estaduais de Comunicação. O governo Lula deu início ao Plano Nacional de Banda Larga para fazer frente à falta de investimentos das empresas privadas do setor. O IPEA realizará, no final de novembro, em Brasília, a Conferência do Desenvolvimento, na qual o tema comunicação terá espaço destacado (ver em www.ipea.gov.br).

Ninguém quer tolher a livre circulação de informações e impor a censura. A não ser a grande mídia brasileira, que tenta a todo custo, sufocar e colocar uma mordaça esse saudável debate que não tem como ser interrompido.


http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4866

quinta-feira, 4 de novembro de 2010

41 anos sem Marighella

Neste ano em que a esquerda se unificou em torno da luta contra o retrocesso e neoliberal representado por Serra e apoiou a candidatura da ex-militante da esquerda armada Dilma Rousseff à presidência da república, seria inaceitável deixar passar em branco mais um aniversário de morte daquele que certamente estaria comemorando mais esse passo adiante na história da luta por uma nação justa, livre e democrática: Carlos Marighella

Este comunista baiano, que lutou pelos interesses populares, progressistas e democráticos de todas as formas e sob todas as condições, desde os anos do Estado Novo de Vargas até a fatídica noite de 1969 quando foi assassinado por um operativo montado pela repressão política a serviço dos interesses do grande capital nacional e transnacional instalados no país, é digno de ser reconhecido como um dos mais importantes heróis do povo brasileiro. No dia em que o Brasil for um país que funcione de acordo com os interesses das maiorias populares, certamente o dia 4 de novembro será feriado nacional. Segue abaixo um poema escrito por Marighella que expressa um pouco de sua subjetividade tão tenaz como terna, típica de todos os grandes humanistas do passado e do presente.


Liberdade

Não ficarei tão só no campo da arte,
e, ânimo firme, sobranceiro e forte,
tudo farei por ti para exaltar-te,
serenamente, alheio à própria sorte.

Para que eu possa um dia contemplar-te
dominadora, em férvido transporte,
direi que és bela e pura em toda parte,
por maior risco em que essa audácia importe.

Queira-te eu tanto, e de tal modo em suma,
que não exista força humana alguma
que esta paixão embriagadora dome.

E que eu por ti, se torturado for,
possa feliz, indiferente à dor,
morrer sorrindo a murmurar teu nome”

São Paulo, Presídio Especial, 1939

terça-feira, 26 de outubro de 2010

Carta para a população do Norte/Noroeste Fluminense

Campos dos Goytacazes, 26 de outubro de 2010

CARTA PARA A POPULAÇÃO DO NORTE/NOROESTE FLUMINENSE

CIDADÃOS E CIDADÃS DAS REGIÕES NORTE E NOROESTE FLUMINENSE

Nós, PROFESSORES E PESQUISADORES que atuamos nas regiões Norte e Noroeste Fluminense, vimos nos dirigir a todos que contribuem para a construção da sociedade brasileira nesta delicada conjuntura eleitoral. Queremos dar nosso testemunho do quanto é importante votar na DILMA PARA PRESIDENTE para garantir e ampliar as conquistas do nosso povo com o Governo Lula.

A razão desta carta é a defesa veemente da continuidade e do necessário aprimoramento dos investimentos na EDUCAÇÃO, na produção de conhecimento, de pesquisa e na formação de profissionais de excelência no Brasil. Este círculo virtuoso tornou-se realidade justamente com a chegada do Partido dos Trabalhadores e de LULA no executivo federal. Há dados oficiais de diferentes origens que podem atestar o que afirmamos.

Muitos de nós acompanhamos “a grande noite” da temerária gestão do senhor Paulo Renato de Souza, ministro da Educação de Fernando Henrique Cardoso. Seja enquanto servidores públicos ou estudantes vivenciamos a situação de precariedade infra-estrutural, a ausência de concursos públicos, a quantidade irrisória de verbas para a produção de pesquisa o que fez com que os docentes daquele período amargassem achatamento salarial e lidassem invariavelmente com sua criatividade e disposição altruísta no ofício científico. Outros tantos aposentaram-se ou simplesmente se demitiram por não considerarem minimamente atraente a permanência na carreira docente durante os anos de gestão de PSDB. Era comum na época a expressão “fuga de cérebros” que representa, de forma trágica, prejuízos financeiros e simbólicos irreparáveis para o nosso país. Nos Governos do PSDB não se construíram Escolas Técnicas nem Universidades Públicas. Para estudar, só pagando. Foi uma política contra os pobres, contra a maioria do povo.
A recuperação e substantiva ampliação da rede federal de ensino, no âmbito técnico e superior, tornou-se prática sistemática somente após o término deste período de trevas, quando, por exemplo, a biblioteca do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da UFRJ ficou simplesmente fechada por um longo período em virtude da ausência de manutenção.

Por tudo isso, em defesa da qualidade do ensino público gratuito e de qualidade, que não se resume somente a Escolas Técnicas, como demagogicamente aponta oposição, vimos lhes convidar para a reflexão necessária.

Devemos ao Governo Lula e à filosofia de trabalho da candidata DILMA ROUSSEF o aumento das vagas e do acesso dos estudantes das famílias mais pobres tanto ao ensino técnico quanto ao ensino superior gratuitos. Além disso, contamos com o futuro GOVERNO DILMA para continuar as políticas de EMPREGO E RENDA que aumentaram enormemente o emprego, a quantidade de trabalhadores com carteira assinada, o salário mínimo e a política de assistência, com o Bolsa Família, o PRONAF, além de muitos outros. A continuidade dessas políticas é fundamental para que os jovens das famílias mais pobres possam se dedicar totalmente ao estudo e à formação profissional e PARA QUE TODOS OS BRASILEIROS TENHAM UM FUTURO MELHOR.

VOTAREMOS, NESTE ESPÍRITO, NA CANDIDATA DILMA ROUSSEF DO PARTIDO DOS TRABALHADORES, NA CERTEZA DE QUE SÓ DILMA PODERÁ GARANTIR A CONTINUIDADE DA INCLUSÃO DE TODOS OS BRASILEIROS NOS DIREITOS DE CIDADANIA.

Votarão 13 no dia 31 de outubro:

Prof. Ana Maria Almeida da Costa UFF-Universidade Federal Fluminense
Artur Dalla Cypreste, Mestrando do PPGSP - Programa de Pós Graduação em Sociologia Política da UENF - Universidade Estadual do Norte Fluminense Darcy Ribeiro

Betina I. Terra Azevedo Arenari - Professora Instituto Federal Fluminense e mestra em Biotecnologia pela UENF

Brand Arenari - Doutorando em sociologia na Universidade Humboldt Berlim-Alemanha

Prof. Carlos Eugênio Soares de Lemos, Professor Adjunto de Teoria Social e Coordenador da Universidade da Terceira Idade - UFF- Pólo Universitário de Campos dos Goytacazes

Daniel Pinheiro Caetano Damasceno – Bacharel em Ciência da Educação - UENF (2006) Mestre em Sociologia Política - UENF (2009) e Doutorando em Sociologia Política – UENF

Prof. George Gomes Coutinho – Professor Assistente de Sociologia UFF- Pólo Universitário de Campos dos Goytacazes e Doutorando em Sociologia Política UENF

Gerson Tavares do Carmo - Professor Institutos Superiores de Ensino do CENSA / Professor do Programa de Licenciatura PARFOR-Uenf / Recém Doutor pelo Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política da Uenf

Prof. Guilherme Vieira Dias - Professor de Geografia do Instituto
Federal Fluminense (IFF) e da rede estadual de ensino.

Prof. Halisson dos Santos Paes - Professor da Universidade Cândido Mendes e do ISECENSA - Instituto de Ensino Superior do Centro Educacional Nossa Senhora Auxiliadora.

Prof. José Luis Vianna da Cruz – Diretor do Polo Universitário da UFF em Campos dos Goytacazes

José Henrique Mendes Crizostomo - Sociólogo e mestrando em Sociologia Política pela UENF

Lorena Rodrigues Tavares de Freitas Graduação em Ciências Sociais (UENF) Mestrado em Ciências Sociais (UFJF) Doutoranda em Sociologia Política (UENF)

Prof. Maycon Bezerra de Almeida - professor de Sociologia do Instituto
Federal Fluminense

Manuela Vieira Blanc, doutoranda PPGSP/UENF

Marcus Cardoso da Silva Mestrando Programa de Pós-Graduação em Sociologia Política UENF


Paulo Sérgio Ribeiro da Silva Jr. Sociólogo e Mestre em Políticas Sociais (UENF). Doutorando em Sociologia (UNESP-Araraquara


Renan Lubanco Assis – Licenciado em História pela Uniflu (Campos, RJ) (2007)
e Mestrando em Sociologia Política pela Universidade Estadual do Norte Fluminense
Darcy Ribeiro (Uenf).

Rafael Pinheiro Caetano Damasceno - Doutorando em Sociologia Política – UENF

Prof. Roberto Moraes – Instituto Federal Fluminense (IFF)

Roberto Dutra Torres Junior - Doutorando em Sociologia pela Humboldt Universität zu Berlin

Prof. Rodrigo Anido Lira - Professor da Universidade Candido Mendes~

Prof. Rodrigo Rosselini Julio Rodrigues - Professor do Instituto Federal Fluminense

Sana Gimenes Alvarenga Domingues - Mestre pelo PPGSP/UENF

Prof. Dr. Thiago Motta Venancio - Pós-doutorando do National Institutes of Health (EUA) até 25/11/2010 e Professor Associado do Centro de Biociências e Biotecnologia (CBB) - UENF a partir de 27/11/2010

Yolanda Gaffrée Ribeiro. Mestranda em Sociologia Política - UENF

terça-feira, 5 de outubro de 2010

O que a "onda verde" pode ensinar ao PSOL?

A grande votação recebida pela candidatura de Marina Silva à presidência da república, próximo aos vinte milhões de votos, surpreendeu à esmagadora maioria dos analistas políticos, estivessem estes à esquerda ou à direita do espectro político. Logo após a divulgação dos resultados eleitorais do primeiro turno, no calor dos embates políticos e, principalmente, na atmosfera da frustração pelo fato de o quadro não haver possibilitado uma vitória da candidatura Dilma Roussef no primeiro turno, a maior parte dos intelectuais e militantes da centro-esquerda e da esquerda brasileira – incluo-me neste conjunto – passou a sentir pelo fenômeno da “onda verde” um misto de indignação e asco pelo que apressadaamente foi caracterizado, de modo simplista, como uma conjugação entre votos reacionários do fundamentalismo cristão (evangélico, principalmente) e votos irresponsavelmente “pós-modernos” de uma classe média esnobe e insensível aos reais dramas sociais brasileiros.

Passado já um número mais significativo de horas, me parece ser o momento para retomar a razão e partir para uma análise um pouco menos simplista do fenômeno eleitoral representado pela candidatura Marina em sua complexidade real. Na verdade, o objetivo aqui neste pequeno texto é tentar encontrar neste fenômeno da “onda verde” alguns ensinamentos que possam ser úteis aos próximos passos do PSOL em sua trajetória política. Isto se torna ainda mais necessário em função da profunda reflexão que deverá ser feita nos quadros partidários após o choque de realidade que os números eleitorais devem dar ao nosso pequeno partido socialista.

Em primeiro lugar, já não é muita novidade afirmar que o eleitorado de Marina se constituiu a partir da confluência de expectativas, vontades e idéias as mais distintas entre si. Ambientalistas, evangélicos, direitistas frustrados com Serra, centro-esquerdistas com rejeição a Dilma, jovens pós-modernos de classe média e, principalmente para o que me interessa agora, os “esquerdistas da ética” formam, em seu conjunto, os participantes da “onda verde” de Marina. Esta última fatia do eleitorado que depositou sua esperança no projeto apresentado pela ex-senadora do Acre é justamente aquela com a qual o PSOL dialogou desde sua fundação, e mais, ainda dialoga, é o bastante ver as estrondosas votações recebidas pelas candidaturas de Chico Alencar e Marcelo Freixo no Rio de Janeiro (respectivamente para deputado federal e estadual), pela candidatura de Toninho do PSOL ao governo do DF e pela candidatura de Randolfe Rodrigues ao Senado pelo Amapá. Que ninguém tenha dúvida de que, em grande medida, os eleitores destes quadros psolistas votaram, simultaneamente, em Marina para presidente.

A opção destes “esquerdistas da ética” (eleitores que compreendem que a bandeira da ética na política deve ocupar um lugar de primeira grandeza ou até mesmo de preponderância entre outras bandeiras socialmente progressistas) pela candidatura Marina Silva traz alguns elementos importantes para a reflexão. Em 2006 este eleitorado certamente esteve com o PSOL e Heloisa Helena na sua indignação acesa contra a corrupção instalada no seio do governo petista e contra o abandono quase geral de qualquer fisionomia progressista pelo governo Lula em seu primeiro mandato. Em 2010 o quadro se altera sensivelmente, em primeiro lugar pela ausência de Heloisa Helena na disputa presidencial. Em segundo lugar, pelo fato de que o conteúdo doutrinário e ultimatista e a forma caricata e jocosa da candidatura de Plínio de Arruda Sampaio pelo PSOL foi absolutamente incapaz de atrair a mais mínima confiança do eleitorado em questão, garantindo a eles, no máximo, boas risadas nos debates televisivos. Por último, alguns aspectos centrais no discurso de Marina Silva criaram as condições para que este eleitorado encontrasse em sua candidatura a representação mais adequada de seu ponto de vista nas atuais condições.

O que em Marina Silva atraiu para si aquele eleitorado que, no âmbito da disputa presidencial, foi do PSOL em 2006? Talvez o mais importante tenha sido a conjugação da preservação de um simbolismo popular de esquerda, a idéia de construção de um modelo de desenvolvimento para o país sobre bases renovadoras, a ênfase em uma postura simbólica baseada na ética na política e, de modo algum menos importante, um reconhecimento explícito dos significativos progressos experimentados pelo país (e sentidos pelo povo) nos últimos anos (em especial, no segundo governo Lula) e a predisposição para aprofundá-los corrigindo os erros e falhas. Marina fala em dar continuidade aos últimos dezesseis anos (FHC e Lula) levando o processo de avanço social adiante sem negligenciar os problemas manifestos e, por sua parte, o eleitorado formado pelos “esquerdistas da ética” capta sua abertura ao reconhecimento dos avanços do processo em curso com a manutenção simultânea do ímpeto em aprofundar a reforma social com a intransigência na defesa da ética na política.

A escolha de um eleitorado de esquerda por Marina – que poderia ser ainda maior se a candidatura em questão fosse menos contraditória – deixa claro que os êxitos do governo de centro-esquerda petista não são uma derrota para quem postula se situar á sua esquerda (ou que assim se pareça ao eleitorado, como no caso de Marina), desde que a esquerda que queira disputar esta massa saiba se posicionar corretamente frente ao governo e a seus êxitos. O reconhecimento dos avanços promovidos pela centro-esquerda no poder com o apontamento de seus limites é o caminho para o redirecionamento do PSOL no sentido de voltar a se postular como alternativa de governo ao povo brasileiro. Já passou da hora de romper com o sectarismo anti-PT que caracterizou os primeiros anos de existência do PSOL. O povo brasileiro precisa e anseia por uma esquerda menos visceral e mais racional, uma esquerda menos denuncista e mais propositiva, uma esquerda menos intransigente e mais aberta ao diálogo com o conjunto dos setores mais ou menos progressistas da sociedade brasileira. A melhor prova disto é o fato de que as mais expressivas vitórias eleitorais do PSOL nestas eleições foram aquelas que se deveram a uma maior aproximação destes princípios.

sexta-feira, 1 de outubro de 2010

Por que voto em Dilma?

Estas eleições estão marcadas por uma profunda polarização política e social e que por isso deve ser tratada com a maior seriedade possível. Muito está em jogo neste processo eleitoral mas, infelizmente, a maioria da esquerda socialista organizada no PSOL – meu partido – e nos pequenos partidos da ultra-esquerda não consegue ir além de caracterizações muito gerais e abstratas para que possam entrar em contato com as reais complexidades e com os dinamismos efetivos deste grande caleidoscópio que é a sociedade brasileira.

A ultra-esquerda, aferrada ao seu dogmatismo incurável, mergulha cada vez mais fundo em uma incapacidade política que parece separá-la definitivamente de qualquer diálogo frutífero com as reais necessidades e interesses das maiorias populares do país. Por outro lado, o PSOL que nasceu com a proposta de ser a superação do semi-suicida pragmatismo conservador e sem princípios hegemônico no PT e expresso no primeiro mandato do governo Lula e, ao mesmo tempo, buscando evitar os erros do esquematismo teórico e o sectarismo político da ultra-esquerda, parece não haver conseguido, pelo menos em seu conjunto, perceber a profunda mudança representada pelo segundo mandato presidencial de Lula em relação aos seus primeiros quatro anos.

A linha adotada pelo governo Lula, em seu primeiro mandato, extremamente “paz e amor”, praticamente desarmou politicamente o conjunto das forças da centro-esquerda e da esquerda do espectro político contra as potenciais investidas da direita neoliberal, investidas estas que se materializaram quando do escândalo do “mensalão” em 2005 e deram origem ao início de uma violenta campanha político-midiática contra Lula, o PT e o conjunto dos setores progressistas da sociedade brasileira. As eleições presidenciais de 2006 foram o teatro de operações de uma verdadeira ofensiva estratégica desencadeada pela direita neoliberal no sentido de retomar o controle da máquina pública, felizmente a ofensiva foi derrotada e criou as condições para um rearranjo político no governo Lula em seu segundo mandato.

Diante da radicalização política da direita neoliberal, os setores mais progressistas do PT conquistam um papel mais relevante na estrutura do governo federal, e o conservadorismo pragmático cede espaço a uma nova orientação mais clara em um sentido não-neoliberal – até mesmo anti-neoliberal – caracterizado como novo-desenvolvimentista. Esta nova orientação governamental acelera o processo de expansão e fortalecimento do poder público, impulsiona o desenvolvimento de uma política econômica mais propriamente keynesiana (em especial a partir da crise de 2008), e abre o campo para uma atividade mais à esquerda no tocante à política externa e à disputa político-ideológica na sociedade (através de organismos como o IPEA, por exemplo).

A adoção de uma lógica novo-desenvolvimentista na condução do segundo mandato fez o governo Lula atingir um grau de popularidade inédito na história do país, baseada em um efetivo crescimento econômico, redução da pobreza extrema e ampliação das oportunidades para grandes parcelas da população. É com base neste capital político que a candidatura Dilma chega como franca favorita a este pleito enfrentando, no entanto, uma ofensiva da direita neoliberal ainda mais agressiva do que em 2006, que chega mesmo às raias do golpismo.

Lamentavelmente, como assinalei anteriormente, o PSOL em sua maioria não conseguiu acompanhar analiticamente este processo e manteve, no geral, uma interpretação do governo Lula que, correta para o primeiro mandato, tornou-se obsoleta para interpretar este segundo mandato. A idéia de colocar um sinal de igual entre Lula e FHC e entre PT e PSDB descolou as análises e a política do PSOL da realidade brasileira atual, descolamento este que conduziu a escolha de Plínio de Arruda Sampaio como candidato à presidência da república. O que já parecia inadequado mostrou-se realmente catastrófico, a candidatura Plínio, baseada em um dogmatismo sectário e irresponsável, que chegou a fazer coro com a direita neoliberal contra a candidatura do PT, fez uma verdadeira caricatura grotesca do PSOL e do próprio projeto dos socialistas brasileiros para o país. Ainda não podemos constatar o quão devastadora foi sua candidatura para o futuro do PSOL.

Diante deste quadro, está claro para mim o quanto é inadequado fazer campanha para Plínio de Arruda Sampaio e, ao mesmo tempo, o quanto é importante apoiar a candidatura Dilma a presidência contra a ofensiva direitista tucana. O apoio a Dilma se dá fundamentalmente em função de alguns elementos centrais. Em primeiro lugar, entendo que a questão central que polariza estas eleições se refere ao Estado, sua expansão e fortalecimento, de um lado, ou sua redução e neutralização , por outro lado. Como não é possível que se imagine a ampliação dos direitos na sociedade sem uma expansão do Estado, isto conduz ao voto em Dilma. Em segundo lugar, ainda que o novo-desenvolvimentismo petista não seja um projeto de reforma profunda no tocante às estruturas econômico-sociais do país, representa um efetivo avanço frente ao neoliberalismo tucano e, isso também, conduz ao voto em Dilma. Em terceiro lugar, mas não menos importante, a orientação sul-sul da política externa petista conduz a uma ativa sustentação dos governos bolivarianos da América do Sul, pressuposto indispensável de qualquer avanço no sentido socialista nos tempos que correm, e isto também conduz ao voto em Dilma. Sendo assim, nestas eleições, o voto socialista deve ser o voto em Dilma porque infelizmente o PSOL não se capacitou a intervir seriamente no pleito com uma candidatura à altura da tarefa dos socialistas no país.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

A direita e o direito internacional

O recente episódio no qual as forças armadas israelenses atacaram uma pequena frota de barcos carregados de ajuda humanitária destinada à Faixa de Gaza na Palestina (que sofre um ilegal, cruel e sádico bloqueio total por parte do governo de Israel) evidencia de modo muito claro algo mais do que a natureza ilegítima, truculenta e inaceitável do Estado de Israel e sua concepção de soberania e autodefesa reacionária e anti-humanista, evidencia também o cinismo escancarado que estrutura as posições políticas dos setores da direita internacional e nacional.

Tendo à frente o imperialismo estadunidense as forças da direita internacional, e seus representantes em solo brasileiro, se colocam na postura de intransigente agressividade contra toda e qualquer movimentação de afirmação de soberania por parte de países da periferia capitalista global, seja na Venezuela ou no Irã. Este setor político transporta para a arena internacional a lógica de um antigo político mineiro para quem “aos amigos tudo, aos inimigos a lei”. Frente ao projeto soberano do governo iraniano de enriquecimento de urânio para fins pacíficos, gritos e ameaças. Frente às inúmeras violações do direito internacional e da moralidade pública por parte do genocida Estado de Israel, a tolerância, a compreensão, a cumplicidade.

Internamente, a oposição de direita ao governo Lula fez coro com o governo dos EUA e atacou a acertada posição da diplomacia brasileira no acordo firmada com os governos iraniano e turco. Ainda que seja correto perceber nos termos do acordo um recuo nas soberanas pretensões do Irã e seu programa nuclear, o fato é que o acordo criou todas as condições para atirar na ilegitimidade qualquer rodada de novas sanções internacionais ao governo e ao povo do Irã. Para a grande mídia corporativa de direita e seus pares no legislativo, o governo Lula estaria sendo ingênuo ou aventureiro, devendo deixar os assuntos internacionais aos donos do mundo, em especial, os donos ianques.

Em relação à criminosa ofensiva israelense contra a frota de pacifistas solidários ao povo palestino e ao seu sofrimento, os setores da direita neoliberal pró-ianque brasileira tentam manter um cínico desconforto em função dos “erros táticos” da ação israelense, tentando camuflar o fato principal que é o ataque em si, em águas internacionais e em defesa de um bloqueio já apontado como ilegal pela ONU contra a população de Gaza. Lembrando do grande filósofo húngaro Georg Lukács e sua acertada interpretação da ordem mundial pós-II Guerra Mundial, o cinismo realmente é o suporte fundamental de toda ideologia burguesa contemporânea.

O direito internacional público, assim como suas instituições, são a síntese, em maior ou menor medida, de duas pressões distintas: o multilateralismo imposto por uma situação de multipolaridade geopolítica cada vez mais real, por um lado, e a unilateralidade imposta pelo imperialismo do grande capital transnacional complexamente articulado, por outro lado. Sendo assim, a postura dos representantes políticos e ideológicos do grande capital, dentro e fora do país, frente ao direito internacional será sempre ambígua. Quando as leis internacionais e suas instituições forem favoráveis aos interesses exclusivistas do imperialismo, se exigirá a defesa das leis internacionais (como no caso do Tratado de Não-Proliferação Nuclear), quando forem o reflexo do multilateralismo internacional concreto, haverá em relação a elas um cínico desprezo dispensado pelas forças políticas da direita internacional.

A defesa de uma ordem internacional baseada na multilateralidade e na convivência pacífica entre os povos exige dos governos comprometidos com o progresso social a defesa intransigente do multilateralismo e da democratização das instituições internacionais. É necessário que estes governos saibam dar sempre a justa resposta frente ao desrespeito às leis internacionais, quando formuladas em um âmbito democrático, e problematizar as leis que resultem de um acordo anacrônico entre potências mais ou menos decadentes. O rompimento de relações diplomáticas do governo venezuelano diante da ofensiva israelense contra Gaza no passado recente, permanece como um exemplo de postura soberana e progressista que deveria ser seguida por outros países, como o Brasil, no atual contexto.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

A Tailândia e o "espírito do capitalismo"

Como ainda existem, nos meios intelectuais e no senso comum, aqueles que acreditam na lógica weberiana segundo a qual a organização capitalista da vida econômica tende a promover a racionalização e a democratização da vida social e política como reflexo, faço questão de chamar a atenção para os eventos que se desenrolam agora mesmo na Tailândia e sua relação com aquilo que pode ser definido como a forma padrão de incorporação asiática dos determinantes sociais do capitalismo.

A brutal repressão desencadeada pelo atual governo tailandês (empossado por um golpe militar desferido contra um presidente democraticamente eleito) contra manifestantes oriundos das paupérrimas regiões rurais do país que se encontram acampados na capital do país, expressa nada além dos rudes interesses exclusivistas das elites econômicas e sociais que dirigem o país.

A incorporação dos países asiáticos à ordem econômica capitalista internacional nunca deixou rastros de avanços democráticos e progressistas nas sociedades em questão, ao contrário, Tailândia, Indonésia, Malásia, Cingapura, Filipinas e etc, são alguns dos países asiáticos, juntamente com a Coréia do Sul, que mais deixam claro a estreita relação que existe entre desenvolvimento capitalista e autoritarismo político na Ásia, o que lança por terra todo argumento que busca relacionar de modo automático capitalismo e democracia.

Nós latino-americanos temos em nossa história as marcas profundas e dolorosas das formas brutalmente autoritárias necessárias para impor a "modernização capitalista" às nossas sociedades. Talvez isto seja menos claro por aqui hoje mas o exemplo tailandês e asiático nos mostra que Max Weber era muito mais um apologeta do que uma analista ao vincular de modo inevitável capitalismo e democracia.

terça-feira, 18 de maio de 2010

Servilismo midiático e o Irã

A tremenda pressão exercida pelos EUA e potências européias, turbinada pela ação do lobby sionista internacional (não ver aqui, por favor, nenhuma anti-semitismo), contra a legítima pretensão soberana do governo iraniano relacionada com o enriquecimento do urânio para geração de energia nuclear, encontra no Brasil representantes caricatos que seriam patéticos se não fossem repugnantes.

Os jornalistas e demais intelectuais amestrados da grande mídia corporativa tentam fazer o povo enxergar o tremendo êxito do governo Lula (há que reconhecê-lo)no trato diplomático desta questão, como uma "trapalhada" ou uma "ingenuidade". É absolutamente inaceitável a distorção ideológica promovida pela grande mídia que faz coro com as pretensões belicistas dos EUA e de Israel, principalmente, contra uma nação soberana como o Irã.

O grande êxito da manobra diplomática do governo Lula está no fato de que, em um contexto de aceleração da formulação de sanções seríssimas contra o Irã por parte das grandes potências mundiais, permitiu abrir espaço para um distensionamento e para um retorno ao diálogo que deslegitima as sanções punitivas preparadas.

A naturalização de uma política intervencionista das grandes potências mundiais contra países da periferia global é um termendo risco a todos os países que se encontram na condição do Irã, Brasil, Turquia e da maior parte dos países do mundo subdesenvolvido. Toda movimentação do governo Lula no sentido de frear a sanha unilateralista das grandes potências deve ser apoiada, principalmente por nós do PSOL que nos encontramos na oposição de esquertda a este governo.

Blogosfera campista mais rica

Dois novos blogs tornaram a já interessantíssima blogosfera campista ainda mais rica. O primeiro destes blogs, de importância fundamental, é o blog da Associação dos Docentes da UENF que passa a trazer a indispensável contribuição destes companheiros para o debate público relativo às questões de natureza sindical, local e global (www.aduenf.blogspot.com).

O outro novo blog campista é "Pensar e questionar" da Emanuelle Oliveira (Manú) de quem eu tenho orgulho de ser professor no Liceu de Humanidades de Campos. Manú consegue trazer com riqueza de forma e conteúdo as inquietações e questões da juventude contemporânea (www.pensar-e-questionar.blogspot.com).

Os dois blogs valem muito a visita e a atenção. Sigam esta dica.

De volta ao debate.

Bem, posso dizer que agora é "a vera", como se dizia antigamente. Finalmente, depois de uma verdadeira revolução na vida pessoal que me colocou na condição turbulenta de um "single", começo a encontrar um mínimo de estabilidade e organização para voltar a intervir neste espaço, tão caro para mim. Espero que os dois leitores que habitualamente liam as digressões aqui propostas, ainda tenham este interesse. Saudações a tod@s!

sábado, 6 de março de 2010

Ex-esquerdistas e sua miséria moral

Não podia deixar de postar este texto de Emir Sader a respeito dos antigos militantes de esquerda convertidos em direitistas raivosos. Concordo em gênero, número e grau com Sader: os Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli e cia, são a escória moral da sociedade brasileira. Boa leitura!


A miséria moral de ex-esquerdistas

Alguns sentem satisfação quando alguém que foi de esquerda salta o muro, muda de campo e se torna de direita – como se dissessem: “Eu sabia, você nunca me enganou”, etc., etc. Outros sentem tristeza, pelo triste espetáculo de quem joga fora, com os valores, sua própria dignidade – em troca de um emprego, de um reconhecimento, de um espaçozinho na televisão.

O certo é que nos acostumamos a que grande parte dos direitistas de hoje tenham sido de esquerda ontem. O caminho inverso é muito menos comum. A direita sabe recompensar os que aderem a seus ideais – e salários. A adesão à esquerda costuma ser pelo convencimento dos seus ideais.

O ex-esquerdista ataca com especial fúria a esquerda, como quem ataca a si mesmo, a seu próprio passado. Não apenas renega as idéias que nortearam – às vezes o melhor período da sua vida -, mas precisa mostrar, o tempo todo, à direita e a todos os seus poderes, que odeia de tal maneira a esquerda, que já nunca mais recairá naquele “veneno” que o tinha viciado. Que agora podem contar com ele, na primeira fila, para combater o que ele foi, com um empenho de quem “conheceu o monstro por dentro”, sabe seu efeito corrosivo e se mostra combatente extremista contra a esquerda.

Não discute as idéias que teve ou as que outros têm. Não basta. Senão seria tratar interpretações possíveis, às quais aderiu e já não adere. Não. Precisa chamar a atenção dos incautos sobre a dependência que geram a “dialética”, a “luta de classes”, a promessa de uma “sociedade de igualdade, sem classes e sem Estado”. Denunciar, denunciar qualquer indicio de que o vício pode voltar, que qualquer vacilação em relação a temas aparentemente ingênuos, banais, corriqueiros, como as políticas de cotas nas universidades, uma política habitacional, o apoio a um presidente legalmente eleito de um país, podem esconder o veneno da víbora do “socialismo”, do “totalitarismo”, do “stalinismo”.

Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente.

Aderem à direita com a fúria dos desesperados, dos que defendem teses mais que nunca superadas, derrotadas, e daí o desespero. Atacam o governo Lula, o PT, como se fossem a reencarnação do bolchevismo, descobrem em cada ação estatal o “totalitarismo”, em cada política social a “mão corruptora do Estado”, do “chavismo”, do “populismo”.

Vagam, de entrevista a artigo, de blog à mesa redonda, expiando seu passado, aderidos com o mesmo ímpeto que um dia tiveram para atacar o capitalismo, agora para defender a “democracia” contra os seus detratores. Escrevem livros de denúncia, com suposto tempero acadêmico, em editoras de direita, gritam aos quatro ventos que o “perigo comunista” – sem o qual não seriam nada – está vivo, escondido detrás do PAC, do Minha casa, minha vida, da Conferência Nacional de Comunicação, da Dilma – “uma vez terrorista, sempre terrorista”.

Merecem nosso desprezo, nem sequer nossa comiseração, porque sabem o que fazem – e os salários no fim do mês não nos deixam mentir, alimentam suas mentiras – e ganham com isso. Saíram das bibliotecas, das salas de aula, das manifestações e panfletagens, para espaços na mídia, para abraços da direita, de empresários, de próceres da ditadura.

Vagam como almas penadas em órgãos de imprensa que se esfarelam, que vivem seus últimos sopros de vida, com os quais serão enterrados, sem pena, nem glória, esquecidos como serviçais do poder, a que foram reduzidos por sua subserviência aos que crêem que ainda mandam e seguirão mandado no mundo contra o qual, um dia, se rebelaram e pelo que agora pagam rastejando junto ao que de pior possui uma elite decadente e em vésperas de ser derrotada por muito tempo. Morrerão com ela, destino que escolheram em troca de pequenas glórias efêmeras e de uns tostões furados pela sua miséria moral. O povo nem sabe que existiram, embora participe ativamente do seu enterro.


http://www.cartamaior.com.br/templates/postMostrar.cfm?blog_id=1&post_id=424

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

A anticandidatura Plínio de Arruda Sampaio e a miséria da estratégia

Já faz uma boa quantidade de anos que o historiador marxista britânico Perry Anderson, ao fazer a crítica às limitações do “marxismo ocidental” apontou como principal elemento destas limitações o abandono da elaboração das questões relativas à estratégia no campo de preocupações intelectuais dos estudiosos compreendidos sob aquela definição de marxismo ocidental.

Sem desconsiderar as enormes diferenças que existem entre o panorama dominante no campo da intelectualidade marxista brasileira contemporânea e aquele quadro analisado por Anderson na Europa, é possível afirmar que por aqui também a fragilidade, ou quase inexistência, de uma reflexão sistemática a respeito da estratégia de construção socialista entre nossos intelectuais marxistas tem levado, no atual contexto, a uma espécie de postura retardatária em relação à dinâmica da realidade política.

Entendo correto pôr de lado nesta análise aquele setor do campo marxista que assume uma postura dita “principista” e que, na verdade, consiste apenas em fazer a exegese de textos de autores clássicos do marxismo e tentar dotar sua orientação política da legitimidade supostamente conferida pelo princípio da autoridade imanente a estes autores. Setor este minoritário, mas suficientemente representativo para exercer algum nível de pressão sobre o conjunto do campo intelectual marxista, estes “principistas” acabam por se chocar diretamente contra o mais básico fundamento do pensamento marxista: a dialética materialista.

Desconsiderando o setor anteriormente mencionado, é possível dividir hoje o campo da intelectualidade marxista no país em dois grandes grupos: aqueles que adotam uma posição de sustentação política do governo Lula (estando ou não nos partidos da base de apoio governista) e aqueles que se mantém na oposição de esquerda ao governo Lula (majoritariamente reunidos no PSOL). Apesar de opostos por esta diferença política fundamental, a maior parte dos intelectuais destes dois grupos guardam entre si uma mesma característica: a ausência de iniciativa na formulação relativa à estratégia política de construção do socialismo e, conseqüentemente, uma postura seguidista pouco refletida em relação à dinâmica da conjuntura.

A maior parte dos intelectuais marxistas que se encontram na base de apoio ao governo Lula se esforça profundamente para tentar dotar a conversão deste governo aos interesses do grande capital de sentido teórico-prático coerente com as formulações da tradição marxista. Nos dias que correm um “novo-desenvolvimentismo” que associa elementos progressistas (como a orientação de administrar o câmbio e regular os movimentos de capital) com elementos ultra-reacionários (como estimular a subordinação do desenvolvimento à “burguesia nacional” e impulsionar a privatização de serviços públicos tidos como não-fundamentais) é o horizonte político e estratégico máximo deste grupo em questão.

Os intelectuais marxistas, por outro lado, que se encontram hoje em uma postura de oposição de esquerda ao governo Lula estão majoritariamente organizados no PSOL ou são do partido simpatizantes. Deste grupo, a maior parte é reconhecida nacional e/ou internacionalmente por grandes contribuições teóricas e analíticas, no entanto, os elementos de estratégia não figuram, de modo geral, entre os temas abordados por seus trabalhos. Diante da adaptação definitiva de Lula e do PT à ordem do capital, grande parte destes intelectuais mencionados acima mergulharam em uma certa desorientação que os levou ao refúgio, tido como seguro, em uma posição, no mais das vezes, ultra-esquerdista. A conjuntura passou a afigurar-se para eles como plena de obstáculos e limites e carente, de um modo quase absoluto, de oportunidades políticas e estratégicas para os socialistas.

No momento mesmo em que o PSOL precisa garantir sua consolidação como alternativa política de esquerda, socialista e democrática à capitulação do PT e de Lula aos limites políticos impostos pelo grande capital e também, obviamente, aos próprios representantes intransigentes da ortodoxia neoliberal expressa no bloco PSDB-PFL (vulgo DEM), os intelectuais do PSOL, orgânicos ou não, se mostram plenamente incapazes de pensar o socialismo como uma força viva na sociedade, que para triunfar precisa levar em conta – como fizeram todas as grandes personalidades do marxismo na história – a correlação de forças real estabelecida na sociedade, as condições objetivas e subjetivas em que se desenrola a luta política contra as forças da ordem, a justa relação entre o momento nacional e o momento internacional, ou seja, todos os aspectos fundamentais que devem ser considerados para que se estabeleça de modo sério, correto e conseqüente as linhas de atuação política do partido dos socialistas, ou ao menos, do mais representativo entre eles.

A ausência de uma reflexão estratégica por parte da ampla maioria de nossa intelectualidade marxista contemporânea leva a que incorpore como concepção política um seguidismo irrefletido, seja tendendo ao alinhamento automático ao governo Lula, seja tendendo a uma adesão mais ou menos entusiasmada a um certo maximalismo relativamente dogmático, esquemático e ultra-esquerdista que, na atual conjuntura é representado pela pré-candidatura de Plínio de Arruda Sampaio nos quadros do PSOL, que tende a impor um retrocesso em todo o acúmulo político realizado pelo partido desde a sua fundação.

Sintomaticamente, dentro do PSOL, a pré-candidatura que aparece baseada em uma clara e profunda reflexão estratégica sobre o Brasil, o continente e o mundo contemporâneos, sobre a correlação de forças concretas imposta ao país, sobre os limites e possibilidades colocados à política socialista, é a pré-candidatura de Martiniano Cavalcante, quadro histórico dos movimentos populares, fundador do PSOL e presidente da regional goiana do partido. Esta pré-candidatura tem recebido o desprezo e mesmo uma hostil oposição por parte daquela intelectualidade acima mencionada, sendo impulsionada, por outro lado, por muitas das principais lideranças políticas do partido, entre elas, a deputada federal Luciana Genro e a nossa presidenta Heloísa Helena. A conferência eleitoral do PSOL, que decidirá o candidato do partido à presidência da república, mostrará muito daquilo que se pode esperar para os próximos anos no que se refere ao pensamento e a prática do socialismo no Brasil.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

A vitória da persistência!

É com imensa satisfação que escrevo estas linhas para saudar a vitória, o triunfo mesmo, da aguerrida e incansável iniciativa de Lene Moraes e seu Bando no sentido de resgatar o samba de raiz em Campos dos Goytacazes.

Tenho muito orgulho de ter feito parte do grupo que vem acompanhando a Lene desde os esforços iniciais que plantaram a semente que hoje se colhe na cidade. A roda de samba da Lene Moraes de todas as quintas-feiras na quadra da Psicodélicos é, hoje, um verdadeiro "sucesso de público e crítica". A quadra fica lotada do início ao fim do samba por gente que em grande parte nunca se pensou participando de um evento com as caracterísitcas de uma roda de samba e, principalmente, aqui mesmo na cidade.

Faz algum tempo já se escrevia aqui neste espaço a respeito das potencialidades político-culturais democráticas e progressistas do samba de raiz e das rodas de samba. De um lado se encontram os artistas e compositores autênticos que, em sua imensa maioria, saídos dos meios populares se veêm saudados por um público variado e amplo que chega, certamente, às classes média e alta da sociedade.

De outro lado, o próprio espaço da roda de samba da Lene Moraes na Psicodélicos encarna este espírito democrático, tão necessário como raro aqui na cidade, de reunir pessoas das mais diversas origens sociais para um intercâmbio alegre e festivo em nome da consagração da cultura popular.

Parabéns Lene Moraes pela persistência e por nos ajudar com seu talento impagável a escrever as linhas de um futuro mais democrático e justo para esta cidade que adotamos, você, eu e tantos mais "retirantes".

Quem ganha com o subdesenvolvimento?

Passeando pela internet descobri o desconcertante e delicioso texto que disponibilizo mais abaixo. Trata-se de um texto escrito pela economista Isabela Nogueira, integrante do conselho editorial do site "Crítica Econômica" (http://criticaeconomica.wordpress.com) que, em contato com a realidade da Finlândia, por onde passou, desenvolveu uma reflexão tão irônica quanto instigante das imensas desigualdades que existem não apenas entre os países, como entre os grupos sociais em países marcados pelo subdesenvolvimento, como o nosso. Sem mais, segue o texto. Boa leitura!

Vida longa ao subdesenvolvimento

Subdesenvolvimento é uma maravilha, não duvide. Como membro de nascimento e

sangue da pequena-burguesia paulista, estou levando adiante o plano de lançar o partido “Vida Longa ao Subdesenvolvimento”, e tenho aqui minhas evidências de que vou congregar não só os grandes proprietários de terra, agro-exportadores, financistas e CEOs de multinacionais, mas especialmente a nossa ilustrada classe média brasileira.

Meus companheiros, eu vos alerto: desenvolvimento é um terror! Da higiene e cuidados pessoais à funcionalidade da vida cotidiana, você perderá inúmeras das facilidades de que dispõe hoje.

Esqueça a roupa limpa e a casa cheirosa que a dona Maria deixa semanalmente para você por menos de 1% do seu salário. E o conserto da pia que o Manoel faz por uma

cervejinha? Nunca mais um porteiro vai carregar suas compras até o elevador, ou matar uma barata no meio da madrugada. Suas unhas então, que depressão… Quando você for ao cinema, quem cuida dos bebês, me diz? Adeus àquela feirinha de domingo onde você faz a compra da semana por R$ 15,00. E o trágico final é, naquele dia de calor, você delirando por um refresco à beira da praia, e nem sinal do ambulante, aos berros, “Skol, mate, biscoito Globoooo”.

Nesse mundo tenebroso do desenvolvimento igualitário, não haverá encanador, faxineira, manicure –e se encontrar, vão te custar os olhos da cara. Muito menos aquele quartinho de empregada que quebra um galhão no fundo da sua casa. Porteiro e camelô, esses sim esquece, serão extintos.

É bem verdade que você não terá que pagar uma fortuna pelo colégio das crianças, mas sem as instituições de elite para os nossos meninos vencedores, eles podem se envolver em tantas más influências, imagine só.

Em verdade, você terá que sobreviver em um apartamento minúsculo e assistir à depreciação relativa do salário do seu marido, funcionário do banco, que não vai ganhar mais do que cinco vezes o salário de um motorista de ônibus.

E se você já acha que Bolsa Família é o absurdo do absurdo por apoiar a preguiça de quem não trabalha, imagine que aqui na Finlândia, onde passo minhas férias, auxílio-desemprego chega a mais de 600 euros por mês! Conheço muito brasileiro que gostaria de migrar pra banda de cá e nunca mais trabalhar, ah se conheço.

Não há outro jeito senão perpetuar o subdesenvolvimento, meus amigos. E manter o salário e as condições de vida da maioria bem abaixo da nossa. Só assim, com muitos embaixo, sustentamos a nossa posição cá em cima. Entendem agora? Longa Vida ao Subdesenvolvimento!

Nós estudamos e trabalhamos tanto que merecemos esse respeito! Me desculpe, Maria e seu Manoel, mas vocês vão continuar migrando das suas terras, vivendo em favelas, saindo de casa às seis, muito sol na cabeça, esgoto aberto, lotação ilegal lotada, sem escola decente para seus filhos. Com um pouco de sorte, um deles consegue uma vaga no ProUni, não percam a fé! Mas os outros todos, me desculpem, é necessário, os outros todos vão continuar consertando os nossos estragos e limpando a nossa merda.

Fim de férias.

Os dois ou três leitores deste blog devem ter percebido o "silêncio" que reinou por aqui no último mês. Uma conjunção de fatores pessoais, profissionais, políticos, etc, me obrigaram a uma retirada para "férias". De agora em diante, no entanto, está decretado o fim destas "férias" e tentarei manter a atividade deste espaço, contando, de preferência, com a possibilidade de dialogar com meus prezadíssimos dois ou três leitores.

P.S: Neste período me rendi aos encantos do twitter. Quem quiser ler as intervenção deste que escreve estas linhas naquele espaço é só acessar www.twitter.com/mayconalm

Saudações a tod@s!