quinta-feira, 9 de abril de 2009

Stédile, a crise e o governo Lula


Compartilho com muitos analistas e ativistas do movimento social da opinião de que o MST é o fiel da balança da situação político-social do país. Para onde o MST se dirigir, seja para manter-se no apoio ao governo, seja no sentido da crítica ao governo, pela esquerda, tende a levar consigo o conjunto dos setores mais progressistas da sociedade, desequilibrando a atual correlação de forças, que é plenamente favorável aos interesses do capital.

Na entrevista que segue abaixo, João Pedro Stédile, um dos principais dirigentes do MST, deixa claro que aponta no sentido de um afastamento cada vez maior do governo. A necessidade da crítica às hesitações e contradições do governo Lula, assim como a rearticulação do movimento social em um sentido autônomo e combativo, em torno de um programa anti-neoliberal, anti-imperialista e radicalmente democrático, aparece como a principal prioridade do MST no atual contexto de crise. É o momento de construir uma ampla frente político-social que inclua o MST, o PSol, os demais partidos socialistas, as organizações de trabalhadores, populares e estudantis realmente comprometidas com as necessidades de suas bases, para consolidar e fazer avançar uma alternativa progressista, popular e democrática para a sociedade brasileira. Quem sabe faz a hora, e esta é a hora!

Agência Brasil – Como os movimentos sociais, em especial o MST, têm encarado a questão da crise financeira mundial?

João Pedro Stedile – Hoje, há um consenso nos movimentos sociais, desde as centrais sindicais até as pastorais, de que a crise que está instalada na economia capitalista é internacional e vai pegar todo mundo, ela é profunda, não é apenas da produção. Vai abarcar aspectos sociais, ambientais, políticos e, inclusive, os paradigmas do capitalismo. Nós estamos muito preocupados porque está faltando na sociedade brasileira um processo de debate sobre a natureza da crise, para que o povo brasileiro tenha conhecimento dela, participe e construa alternativas populares para resistir. O pior dos cenários é simplesmente ficar assistindo, na televisão, à interpretação que o governo ou os capitalistas vão dar.

ABr – A interpretação atual da crise, em sua opinião, é equivocada?

Stedile – Evidentemente os capitalistas vão querer sair da crise o mais rápido possível e mais ricos. Para isso, vão pressionar o Estado, como sempre fizeram, para que o Estado transfira a eles dinheiro público. Com isso, vão aumentar a exploração sobre os trabalhadores e o desemprego. Vão diminuir as condições de vida da população. E o governo, com medo da crise, vai ficar todo o tempo dizendo: calma que o leão é manso. É preciso que a população tenha espaço para debater e, sobretudo, que os meios de comunicação que não são dos capitalistas ajudem.

ABr – Por que o senhor acha que o governo tem medo da crise?

Stedile – O governo tem medo de entrar de cabeça no debate sobre a crise temendo repercussões eleitorais. Só há uma forma de ampliar o debate. Se os movimentos sociais e as igrejas pegarem esse debate como peça prioritária, utilizando os meios alternativos que nós temos. O governo tem que sair do casulo. O governo parece que está com medo de sair do debate. Ele precisa se abrir e dizer que não sabe o que fazer, mas chamar para debater.

ABr – Como a agricultura brasileira vem sentindo os efeitos da crise?

Stedile – Essa crise tem atingindo mais em cheio o agronegócio, que é, no fundo, o modo de os capitalistas organizarem a produção agrícola no Brasil. Para isso, eles impuseram um modelo, que nós chamamos de agricultura industrial, totalmente dependente dos insumos, dos agrotóxicos e do mercado internacional. O mercado internacional vai diminuir, a renda dos europeus, americanos e chineses vai diminuir, portanto, vai diminuir o preço das commodities e vai diminuir o mercado. Evidentemente que, de novo, os capitalistas do agronegócio vão querer jogar sobre as costas dos trabalhadores o peso da crise. Já estão jogando. De dezembro pra cá, segundo dados do próprio governo, mais de 300 mil trabalhadores rurais assalariados perderam o emprego.

ABr – E nos assentamentos do MST, como a crise está impactando?

Stedile – Na agricultura familiar e camponesa, em que estão inseridos os assentados, como o próprio modo de produção não é capitalista, o que a gente tem debatido é que temos condições de resistir mais à perversidade da crise. Nós não dependemos de emprego, nós achamos que vai haver uma revalorização dos alimentos, ou seja, na crise o único dinheiro que os trabalhadores reservam é para comida. Pode cortar a luz, telefone, mas a comida não. Temos uma avaliação de que o povo camponês sofrerá menos os efeitos da crise.

ABr – Sofrerá?

Stedile – Sofrerá, talvez mais pela redução no ritmo das políticas públicas agrícolas. Isso é que nos preocupa. Estamos pressionando para que o governo transforme a crise em uma oportunidade. Para proteger a população, essa era a hora de aumentar a reforma agrária, de aumentar os investimentos públicos na agricultura e deixar de lado o agronegócio, deixar de lado os grandes projetos do BNDES [o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] para a expansão do plantio de eucalipto, para expansão do etanol. Isso não desenvolve o país e só gera desemprego. Esse é o debate que estamos fazendo entre nós.

ABr – Como o senhor avalia as medidas tomadas pelo governo até então para conter os efeitos da crise no Brasil?

Stedile – O governo, na boa intenção, diminuiu o percentual do depósito compulsório que os bancos precisam fazer para o Banco Central. Isso representou R$ 180 bilhões que os bancos privados, que recebem o nosso depósito à vista, deixaram de recolher ao BC. A intenção do governo era que esses bancos aplicassem na indústria e na produção para reativar a economia. Mas eles recompraram títulos da dívida pública interna. Ou seja, emprestaram novamente para o governo, a 12 % de juros. Ou seja, os bancos enriqueceram ainda mais. É fácil até fazer a conta. Significa que o governo ajudou os bancos a se apropriarem de R$ 20 bilhões em uma tacada só. Além disso, muitas empresas aproveitam a notícia da crise para reorganizar o seu processo produtivo. Há empresas que estão tendo lucro, como a Vale do Rio Doce, que anunciou R$ 20 bilhões de lucro e colocou na rua 2 mil operários. É um caso de se aproveitar da crise para aumentar a exploração sobre os trabalhadores

ABr – O senhor acha que as medidas então não surtiram efeito?

Stedile – As propostas dos governo e das classes dominantes são as propostas clássicas do capitalismo. A saída que está sendo pensada é mais liberalismo, mais dependência do capital internacional. E também dá para perceber que a classe dominante brasileira não tem um projeto de desenvolvimento do Brasil, ao contrário do que aconteceu na crise de 1929, quando a burguesia brasileira estava articulada ao redor do governo Getúlio Vargas. Agora, a burguesia brasileira não tem um projeto para o país. Ela só quer ter lucro e isso é uma tragédia, para ela, inclusive.

ABr – E o que o senhor acha e o que os movimentos sociais acham que precisa ser feito?

Stedile – Reduzir juros é insuficiente. O que nós precisamos é de uma terceira alternativa, que é uma alternativa popular. Precisamos discutir com as forças organizadas da sociedade um novo projeto de país, um novo modelo econômico para o Brasil.

ABr – O que esse novo modelo incluiria?

Stedile – Algumas medidas prioritárias. A primeira seria a estatização de todo o sistema financeiro. Se não se controla a circulação do dinheiro, nunca vai reativar a produção. Segundo ponto: é necessário acabar com o superávit primário. O governo recolhe os impostos de todos nós e aí separa R$ 200 bilhões para pagar em juros. Isso tem que acabar. Tem que pegar esse dinheiro que está sobrando do orçamento e investir na produção. Mas não é em qualquer produção. Não é em automóveis. Tem que aplicar no que a população brasileira está precisando. Moradia popular, transporte de massa, trem, metrô, navio. Aplicar em escolas. Temos um déficit educacional enorme. Como é que se faz para pular dos 10% de jovens na universidade, que nós temos, para os 80% que tem a Bolívia? Construindo universidade, contratando professor, comprando livro, isso tudo é indústria. Só no investimento na educação, que é a grande tese do Cristovam Buarque, já se poderia incentivar a economia. E o dinheiro tem que vir do superávit primário, que tem que acabar. Pedi para que os economistas amigos do MST pesquisem o seguinte: estou desconfiado de que o Brasil é o único país do mundo a manter o superávit primário. Na Europa, todos os países são deficitários.

ABr – O que mais é necessário?

Stedile – Aplicar recursos e garantir emprego para todo mundo. Todo brasileiro adulto tem que ter direito a emprego. Foi o que Roosevelt fez para tirar os Estados Unidos da crise e transformar em potência mundial. Isso não é novidade. Isso tudo que estou dizendo não é radicalismo.

ABr – Como fica a defesa da reforma agrária em meio a um contexto de crise financeira?

Stedile – A reforma agrária fixa o homem no campo e desfaveliza o país. Além disso, contribui para a produção de alimentos. Os únicos que produzem alimentos são camponeses. O agronegócio produz celulose, etanol, algodão, soja, mas comida não. Quem produz leite, arroz e feijão é o camponês. Essa seria a maneira de ativarmos a produção agrícola. Mas não é voltar àquela reforma agrária antiga.

ABr – E como é a reforma agrária moderna?

Stedile – Agora, queremos outro tipo de reforma agrária. Trata-se de uma reforma agrária que combine o camponês com as agroindústrias cooperativadas. Em vez de o BNDES dar R$ 1 bilhão para a Nestlé, por exemplo, deveria dar o mesmo valor para 100 cooperativas de camponeses que vão pasteurizar o leite, fazer iogurte e vender em sua região. Não precisa mais ter Nestlé. Tem que ter cooperativa de pequenos agricultores. Agora, sem dinheiro público não tem cooperativa que funcione, assim como não tem Nestlè que funcione sem dinheiro do BNDES. Em vez de o BNDES dar R$ 1 bilhão para que a Aracruz saia do prejuízo que ela teve, ele deveria pegar esse dinheiro e emprestar para os camponeses reflorestarem as margens dos rios. Teríamos outra paisagem no país, um reequilíbrio ambiental . Não teria essa loucura do monocultivo do eucalipto que desequilibra toda nossa natureza.

ABr – O senhor falou da necessidade de um programa de construção de casas. Como o senhor avalia o programa Minha Casa, Minha Vida, lançado pelo governo, que visa à construção de 1 milhão de casas populares?

Stedile – O programa de habitação é bom. Espero que o governo tenha capacidade de operação para que de fato 1 milhão de casas sejam financiadas. O meu medo é que o governo deixe isso para o mercado. O governo cria as condições, libera recursos e aí diz que o mercado vai construir 1 milhão de casas. Nunca vi construtora ganhar dinheiro fazendo casa para pobre. Será que não seria melhor voltar a estimular as cooperativas, os mutirões que, de qualquer maneira, vão comprar cimento, vidro, luz elétrica. Mas deixar para empresas construir é um perigo. Seria melhor então deixar para uma empresa estatal como o Chávez [Hugo Chávez, presidente da Venezuela] faz.

ABr – E quanto ao PAC? O governo tem enfatizado que o programa vai ajudar a enfrentar os efeitos da crise. O que o senhor acha?

Stedile – O PAC é um projeto antigo, de antes da crise e tem o objetivo de financiar hidrelétricas, portos e caminhos para que as multinacionais exportem mais barato. Mas agora, com a crise, é necessário pensar outra matriz industrial para resolver problemas do povo, não da exportação.

Agência Brasil

11 comentários:

Xacal disse...

O bom e velho MST faz como todo e qualquer "aliado"...

Aproveita a hora da "descida", e quando a crise econômica tende a agravar as contradições do capital, e de quebra trazer consigo alguns pontos da popularidade do governo, para "encher o peito" e se "reorganizar"...

Veja bem, meu companheiro, ainda assim, louvo a iniciativa como demonstração de autonomia dos movimentos sociais em relação a esse ou qualquer outro governo...

Só estranho que a tentativa de recuperar essa autonomia aconteça agora, na crise...

Soa a oportunismo, tal e qual o apresentado pela extrema-direita e as viúvas do FFHHCC...

Fora da crise, com a abundância do crescimento proporcionada por fundamentos capitalistas ilusórios, que o MST tão bem denuncia, esse movimento se aproveitou dos bons ventos e avançou na viabilização dos assentamentos, no acesso ao crédito e no maior avanço de desapropriação da História...E melhor, com o menor número de mortos em conflitos...

Pois bem, parece que agora é hora de pular do barco...

Bem dizem, que os ratos são os primeiros a abandoná-los...

O que espera o MST...? avançar com o esvaziamento do governo Lula...?

Será que desejam o zé moto-serra...?

É a volta da visão do MR-8(lembra do quércia...?)

Um abraço...!

Nem vou discutir as "sandices programáticas" do Stédile...como "estatização total do sistema financeiro"....seria perda de tempo...

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Saudações meu caro Xacal, seu comentário demonstra com toda a clareza o porque é tão necessário superar o PT como alternativa de esquerda para um projeto efetivamente progressista, popular e democrático no Brasil.
Enquanto a necessidade petista de defender o governo Lula acima de tudo, leva você a chamar de "ratos" os que o criticam pela postura submissa diante dos interesses do grande capital na crise, leva, ao mesmo tempo, a poupar da crítica os aliados "incondicionais" que não o criticam, tais como Renan Calheiros, José Sarney, e Jader Barbalho.
Também é dogmática e míope a afirmação, tão parecida com a de Bush Jr, de que ou se está com o governo Lula ou com "os terroristas" de Serra e FHC. De um lado, tanto as escolhas do governo como as últimas pesquisas eleitorais mostram a possibilidade e a necessidade de construção de um campo político de oposição de esquerda ao governo, de outro lado, nas últimas eleições municipais foi o seu próprio campo no PT que tentou costurar uma aliança com o PSDB, classificando-a como um projeto de transcendente modernidade.
Por último, mas não menos importante, as "sandices" de Stédile, tais como a reivindicação de nacionalização do sistema financeiro, têm sido defendidas por economistas simultaneamente críticos e de renome mundial como Luiz Gonzaga Beluzzo e Paul Krugman (ganhador do último Nobel de economia). Sua afirmação, meu caro amigo, só demonstra o quão destrutivo foi o pragmatismo inconsequente das correntes majoritárias do PT ao longo dos anos 90, que levou o partido a se curvar, de modo irreversével (talvez) aos pressupostos do liberalismo.

Xacal disse...

Caro Maycon,

Não vá com tanta pressa...

Não me referi aos movimentos como ratos, e sim, a postura de alguns ratos que se valem do espaço que a direita e a mídia lhe dão para atacar o governo, para introduzir suas falas oportunistas, até agora submersas na popularidade do Lula, e com o revés causado pela crise, toma corpo...

leia bem o trecho da sandice:
"A primeira seria a estatização de todo o sistema financeiro. "

Não, não, não...O Beluzzo e o Krugman não defendem estatização...nacionalização é utilizara regulação e intervenção do Estados Nacionais para devolver os bancos ao capital nacional desses países, e criar barreiras para a internacionalização que opõe o capital "uber alles" contra a soberania...

Um abraço...

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Meu caro Xacal, não consigo entender como é possível enxergar oportunismo na postura de quem se mantém coerente em relação ao seu projeto político (o MST, por exemplo) e não em quem abre mão dela para garantir sustentação no poder.
A nacionalização defendida pelo Beluzzo e pelo Krugman é estatização sim, a diferença é que para o primeiro (um keynesiano semi-socialista)esta estatização se explica em função da natureza pública do sistema financeiro, e para o segundo (um keynesiano clássico) é uma medida temporária necessária à recuperação da economia.

Roberto Torres disse...

Maycon,

O purismo com relacao a valores, a inflexibilidade da ética da convicao é uma ótima saída para dormir com a consciencia tranquila, mas ela tem efeitos conservadores na política, contrariando a boa intencao de seus praticantes. A demonizacao do capital nao pode ser a unica idéia de um partido que se pensa como alternativa radical para a esquerda. Eu até acho interessante um partido de esquerda que nao esteja comprometido com o governo como é o PT, mas esse partido precisa assumir o risco realista de pensar o mundo e nao repetir os chavoes da esquerda clássica. A forma como o PSoL pensa os atores sociais que ele pode mobilizar é cheia de boa vontade e vazia de coragem em inovar diante da falencia efetiva dos atores sociais clássicos da esquerda. Onde é que tem classe operária do Brasil meu caro? Onde é que tem campones? Só mesmo na cabeca do Stedile e da Heloisa Helena. Com essa pensamento e com esse vocabulário nao há como ser radical. Ser radical para o PSol, na minha visao, seria aproveitar a liberdade de nao ser governo para aprofundar a reflexao junto à sociedade, e sem também se negar a responsabilidade diante da disputa efetiva que se dá na disputa eleitoral entre PSDB e PT, ou seja, nao deixar que o ressentimento justificável da Heloisa Helena leva o PSol para a neutralidade entre PSDB e PT, como fez na última vez.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Roberto, meu caro, é um prazer receber suas intervenções por aqui novamente. Respeito sua opinião e sua posição teórico-política mas sua gana em sepultar um paradigma teórico que, a cada dia, aprofunda sua atualidade - o marxismo - o conduz a alguns erros muito graves.

Em primeiro lugar, ignorar a existência da classe operária, propriamente dita, e do campesinato no Brasil de hoje só pode ser o resultado de uma miopia analítica resultante dos paradigmas teóricos que tentam universalizar alguns processos sociais que talvez façam até algum sentido - nem com isso eu concordo - na Europa ocidental de nossos dias mas no Brasil?

Em segundo lugar, em nenhum momento o PSol afirma que serão os operários e os camponeses, tomados exclusivamente, os sujeitos do processo de transformação social que o Brasil precisa. Isto é o reflexo de uma caricaturização do marxismo que não cabe mais entre intelectuais que acompanham o efetivo processo político na esquerda brasileira. Nós do PSol entendemos que a tarefa dos socialistas no Brasil é construir uma ampla frente social reunindo o conjunto da classe trabalhadora, do campo e da cidade, as camadas médias, os pequenos e médios empresários, os intelectuais (tomados em um sentido amplo)para defender um projeto para o Brasil que realize no país o que nossa burguesia dependente nunca pôde ou quis realizar: uma verdadeira democratização da sociedade que garanta que as necessidades das maiorias de nosso povo possam fundamentar a soberania do poder público sobre os interesses privados do grande capital nacional e transnacional.

Este projeto político progressista, popular e democrático, nós socialistas entendemos que não é mais realizável nos marcos da ordem capitalista contemporânea, ou seja, sem entrar em contradição direta com os interesses e necessidades econômicas e sociais da reprodução capitalista, por isto compreendemos que este conjunto de tarefas democráticas e anti-imperialistas são, inevitavelmente, a ante-sala de uma transformação social mais profunda que questiona os fundamentos do sistema econômico capitalista, abrindo passo ao socialismo. Processos políticos passados (Allende, por exemplo) e presentes (Bolívia e Venezuela, por exemplo) demontram que não é possível encaminhar reformas democráticas e populares na periferia do capitalismo sem entrar em choque direto com as burguesias nativas e o imperialismo, sendo necessário, portanto, superá-los.

Roberto Torres disse...

Caro Maycon, minha gana nao é sepultar o marxismo, cuja atualidade em reconheco e festejo, mas sim em criticar pressupostos que afastam esse paradigma de um realismo sociológico indispensável para a teoria política. Se o PSoL está mesmo disposto a este leque de composicoes sociais, vejo-o se aproximando do PT, e do que voce chama de "adesao aos pressupostos liberais". Sobre a minha miopia analitica, ela precisa ser provada quando voce definir, com lastro empírico, a classe operária e o campesinato que voce, para meu espanto, acredita existir no Brasil. A partir de que diagnóstico voce pode afirmar haver entre nós, ao menos em potencial, a solideriedade coletiva que historicamente se fincou na identidade do trabalho assalariado regular?

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Veja bem, meu caro Roberto, o PSol surge justamente em função do abandono, por parte do PT, do projeto político de garantir reformas efetivamente populares e democráticas no Brasil. Como eu citei antes, a promoção de uma transformação efetivamente popular e democrática na sociedade brasileira vai além dos restritos limites impostos pelas necessidades da reprodução capitalista na periferia, portanto, só é possível realizá-la indo além do capital, rompendo com os pressupostos políticos e econômicos do liberalismo para construir uma verdadeira democracia: política, econômica e social, ou seja, o socialismo.

Carlos Nelson Coutinho classifica esta estratégia, de modo bastante acertado, de "reformismo revolucionário" por ressaltar a interdependência que existe entre estes dois elementos do processo histórico de transformação social.

Quanto ao potencial de solidariedade baseado no trabalho, é só observarmos o fato de que organizações tais como os sindicatos nunca foram tão atuais, seja no Brasil, seja na Europa ( a França demonstra-o bem), ainda que não possam mais ser o único instrumento de organização da classe trabalhadora.

Roberto Torres disse...

Maycon, e como fica a organizacao dos que nao tem trabalho?

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Não é preciso inventar nada novo, aqueles setores mais empobrecidos das massas populares, muitas vezes privados do direito ao trabalho têm construído suas próprias iniciativas de organização e luta no país e fora, a partir de demandas consideradas básicas: movimentos de sem-terra, sem-teto, em defesa dos trabalhadores informais (camelôs), piqueteros (Argentina) e por aí em diante. A articulação entre estes movimentos e o movimento sindical clássico em função de reivindicações gerais e comuns ao conjunto dos trabalhadores não somente é possível como já vem sendo esboçada aqui e no exterior. Um abraço!

Roberto Torres disse...

Nao desprezo essas formas de que voce disse ai. Mas a sua análise é muito otimista, idealizando os pobres e permanecendo cega para a questao da maior parcela dos que parmanecem na apatia política. E esse vonluntarismo tem consequencias bem conservadoras para os próprios fins que defendemos. Que pena que voce acha mesmo que nao é preciso inventar nada de novo.