quinta-feira, 12 de junho de 2008

As novelas-panfleto


Não é novidade nenhuma afirmar que, desde a ruptura com o governo de Lula em 2005, as Organizações Globo partiram para uma ofensiva generalizada, e muitas vezes quixotesca, contra a pessoa do presidente, os ministros do governo federal, o PT, os partidos da base governistas e etc. De modo nada surpreendente seus ataques não se dirigem contra o que é fundamental no governo Lula, ou seja, sua política econômica, já que neste plano há acordo, dirigem-se contra as práticas corruptas e contra os aspectos, mais ou menos imaginários, do esquerdismo petista. Particularmente no que diz respeito a este último aspecto, as Organizações Globo tem se tornado o canal primordial de expressão daquilo que há de pior no pensamento reacionário brasileiro.
A instituição “Novela das Oito” vem se consolidando como o lócus privilegiado para o exercício do proselitismo e da doutrinação ideológica anti-esquerdista. A novela “Duas Caras”, já encerrada, constituiu-se em modelo de um novo tipo de tele-novela: a novela-panfleto. Este tipo de novela abre mão de qualquer pretensão, por mais mínima que seja, de apresentar-se como obra de dramaturgia digna deste nome e, mesmo ao preço de sacrificar pontos de audiência, esforçar-se por manter firme e inabalável o seu caráter de insuportável pregação ética e política contra o pensamento crítico da esquerda, os movimentos populares, e as reivindicações progressistas dos setores mais avançados da sociedade. Vale a pena recordar a exaltação que o texto de Aguinaldo Silva fazia de duas personagens paralelas: a intrépida proprietária de uma instituição privada de ensino superior (em sua eterna luta contra as falanges imorais do sindicato de professores e do movimento estudantil), e o chefão benevolente de uma milícia em uma comunidade favelada.
Encerrada a novela “Duas Caras” que, apesar dos relativamente baixos índices de audiência, cumpriu com perfeição o papel de reforçar as mais baixas tendências do pensamento reacionário brasileiro (seguindo nisto a trilha aberta pelo filme “Tropa de Elite”), a nova novela das oito, “A favorita”, dá mostras de que seguirá pelo mesmo caminho. Em um dos núcleos principais da trama, o confronto entre a personagem do bonachão, conservador e ex-esquerdista empresário milionário (interpretado por Mauro Mendonça) e aquela do patético, irresponsável e rancoroso líder sindical esquerdista (interpretado por Tarcísio Meira) dá o tom ético-político de toda a obra (se é que é possível assim referir-se ao folhetim). Lamentável e previsível destino da “tele-dramaturgia” global.

3 comentários:

Xacal disse...

perfeita a análise...
sem retoques...!

marifagundes_jump disse...

arrasou, professor!
ê-ê hein?!


speed racer forever!

Xacal disse...

outro bom exemplo é a reapresentação no horário das 14:45

a novela cabocla...

nela, dois coronéis disputam o poder...um "coroné" mau, e outro tipo "bonzinho", mas ambos não escondem seu domínio sobre o destino dos subalternos e até da vida sentimental de todos a sua volta...

como alternativa, o filho de um deles, com ideário "renovador", mas que também não esconde suas origens, e sua posiçao de mando...

sua proposta de "renovação" é esbarra na tentativa de "restaurar" os métodos do pai...

de quebra, o "renovador" neco assume uma postura anti-política, anti-partidária como se essa fosse a saída para mudanças estruturais...

a despeito da qualidade da narrativa, e de alguns personagens interessantes, com atores de prmeira linha, e o conflito clássico entre o bem e o mal, assim como o romance impossível, a lá capuleto e montechio, a mensagem é clara...

não há mudança possível, sem a tutela do poder...