quinta-feira, 5 de junho de 2008

A sociologia, a educação e o Brasil

Na segunda-feira última foi sancionada a alteração na Lei de Diretrizes e Bases da Educação que estabelece como obrigatórias, as disciplinas de sociologia e filosofia nas três séries do ensino médio, em todo território nacional e nas redes pública e privada. Sem a menor sombra de dúvida é uma grande conquista para os sociólogos e filósofos (que há muitos anos lutavam por este objetivo), para a educação brasileira (que adquire mais um instrumento para qualificar o processo de formação dos educandos) e para o conjunto da sociedade (que, mais ou menos diretamente, tende a se beneficiar do crescimento da capacidade reflexiva e intelectual da juventude). É importante deixar claro que esta conquista, para poder efetivar todo o potencial progressista que traz em si, necessita, como complemento imprescindível, que a educação se torne, na prática, tão prioritária, quanto é nos discursos dos executores da política educacional do país. Enquanto o Brasil investir em educação menos de 4% do PIB – somente para estabelecer uma comparação, nos EUA e na Europa o investimento em educação gira em torno dos 10% do PIB – os impactos educacionais concretos da adoção das disciplinas de sociologia e filosofia serão, inevitavelmente, muito limitados.
Como sociólogo e professor de sociologia no ensino médio, me inclino a fazer algumas projeções possíveis para um futuro breve, no que se refere às conseqüências da institucionalização do ensino de sociologia na educação básica sobre o quadro atual da sociologia acadêmica. Em primeiro lugar, é tarefa de urgência prioritária fazer avançar o debate a respeito dos conteúdos programáticos que devem constituir o ensino de sociologia no ensino médio. A discussão do conteúdo, por si própria, deve estar fundamentada em uma discussão, anterior, sobre o papel do ensino de sociologia na educação escolar. Este debate, que já mobilizou alguns dos principais expoentes brasileiros de nossa ciência no passado (é preciso retomar as intervenções de nomes como Florestan Fernandes e Guerreiro Ramos sobre a temática em questão), pode promover uma tremenda ”sacudida” no ambiente da sociologia acadêmica do país. Não é nenhuma novidade afirmar que a sociologia brasileira (assim como a internacional) vive uma séria crise multidimensional: é, ao mesmo tempo, uma crise teórica, institucional, de legitimidade e etc. A necessidade de pensar a sociologia cumprindo um papel efetivo no processo de formação intelectual de milhões de jovens brasileiros, matriculados no ensino médio, arrastará, inevitavelmente, o debate sociológico para fora da exclusivista “torre de marfim” dos ambientes acadêmicos, submetendo-o às demandas, às necessidades e à dinâmica da vida social da população brasileira, com todos os seus antagonismos, contradições, limites e possibilidades.
Penso que o relativismo extremado e o irracionalismo pós-moderno, de um lado, assim como a ultra-especialização dos “estudos de minudências” (nas palavras de Guerreiro Ramos), de outro lado, encontrarão dificuldades gigantescas para se colocar à altura das imensas, complexas e sérias necessidades que a sociologia destes novos tempos que se abrem precisará responder. Vislumbro que no médio prazo, em função de uma multiplicidade de fatores (crescimento do número de cursos e matrículas em ciências sociais, exigências relativas à clareza e à objetividade do ensino na educação básica, etc.), o panorama teórico, metodológico e, inclusive, político da sociologia acadêmica deverá passar por um processo de relativa desestabilização e, possivelmente, de transformação. O alinhamento intransigente da maior parte da sociologia acadêmica brasileira aos pressupostos teórico-políticos daquilo que Lukács classifica como “decadência ideológica burguesa”, tende a fazê-la passar por um aprofundamento da crise de sua legitimidade diante da sociedade, quando precisar se colocar diante da exigência prática de instrumentalizar conceitualmente milhões de jovens a respeito da lógica, sentido e natureza da vida social na qual se inserem. Abre-se uma imensa oportunidade para que os setores mais progressistas e críticos da sociologia brasileira trabalhem efetivamente no sentido de contribuir para inverter a correlação de forças vigente no campo de nossa ciência, fazendo dela o que ela sempre deveria ter sido: o instrumento principal para a construção da auto-consciência da sociedade.

Um comentário:

Xacal disse...

uma pena maycon, meu autêntico intelectual de esquerda (uauuuu), é que faltem professores de filosofia e sociologia para ocupar tão necessárias cadeiras...