segunda-feira, 23 de junho de 2008

Cai a desigualdade?


Há algumas semanas atrás, publiquei um artigo aqui comentando a pesquisa do Ipea referente aos níveis de desigualdade econômico-social no Brasil. Naquela ocasião, a pesquisa apontava a permanência de altíssimos índices de desigualdade na sociedade brasileira, com os 10% mais ricos da população concentrando mais de 75% da riqueza nacional. A pesquisa do Ipea, segundo seu presidente, Marcio Pochman, deveria servir de base para uma reforma tributária de caráter progressivo que promovesse uma real distribuição de renda no país, beneficiando o trabalho a partir da renda extraída do capital. Diante daqueles números, comentei que, ao mesmo tempo em que ocorria no país uma diminuição da desigualdade de renda entre os trabalhadores assalariados (baseada na transferência de renda da classe média para os setores mais pauperizados da classe trabalhadora), mantinha-se – ou, até mesmo, ampliava-se - a desigualdade na repartição da riqueza nacional entre o capital e o trabalho, tomados como totalidades.
A última pesquisa divulgada hoje pelo Ipea confirma os comentários que, então, eu compartilhava com alguns críticos, e que me valeram, inclusive, por parte de alguns leitores defensores do governo Lula, acusações de desonestidade intelectual. A pesquisa a que me refiro aponta que caiu a diferença entre os diferentes estratos de renda no âmbito do trabalho. De 2002 a 2008 esta diferença caiu 7%, fundamentalmente porque, neste período, o aumento da renda dos 10% de trabalhadores de mais pobres foi de 21,96% (passando de uma média de R$ 169,22 para R$ 206,38) enquanto que os salários dos trabalhadores mais bem remunerados aumentou, no período, apenas 4,91% (passando de uma média de R$ 4625,74 para R$ 4853,03). Estes números, cínica ou miopemente comemorados pelo governo Lula, foram divulgados simultaneamente com outros, que, por sua vez, apontam que a participação da massa salarial no PIB brasileiro caiu significativamente desde 1995. Em 1995, esta correspondia a 48,8% da riqueza do país e agora corresponde a apenas 39,1%. A conclusão a ser tirada é a seguinte: a desigualdade social no país, efetivamente, aumenta, o que diminui é a diferença entre os salários dos trabalhadores mais empobrecidos e aqueles dos trabalhadores da classe média, basicamente pelo achatamento da renda destes últimos. A transferência de renda que testemunhamos no país não é aquela que se faz do capital em direção aos setores mais fragilizados da classe trabalhadora, como apregoam alguns setores que apóiam o governo Lula, mas sim, dos trabalhadores melhor remunerados para os mais empobrecidos, mantendo preservados e, até mesmo, ampliando, os ganhos do capital e os níveis de exploração da força de trabalho.
É preciso ter clareza que sem uma política que enfrente, de fato, os interesses do grande capital: rompendo com os grilhões da exorbitante dívida pública, tributando as grandes fortunas e os ganhos de lucratividade, submetendo o capital financeiro a uma estrita regulamentação e controle, fortalecendo a capacidade de direção autônoma do poder público na economia, investindo maciçamente na política social (educação, saúde, moradia, saneamento, etc) e na área de ciência e tecnologia, promovendo a reforma agrária e urbana, entre outras medidas; não seremos capazes, apesar de toda retórica e simbolismo, de romper com a lógica perversa da reprodução das desigualdades sociais em nosso país.

2 comentários:

Xacal disse...

não se renda a ditadura dos números, meu caro...

é perigoso...

uma coisa de cada vez...

primeiro a diminuição da distância entre ricos e pobres, depois o aumento da participação na renda nacional, ainda mais se vc considerar que os números se referem principalmente a base da pirâmide social...

estamos fazendo justamente o que vc prega, e agora, por descuido (nunca desonestidade inuelectual) esqueceu, ops...

dividir o bolo para depois crescer...não é isso que pregam...

para aumentar a participação na riqueza nacional é preciso dar acesso a renda...

não se renda a ditadura dos números, isso é augusto comte, não...? cientificismo e rigidez estatística a serviço da ciência social...

meu cordial abraço...

Xacal disse...

correção: (...)intelectual(...)