terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Marx e a crise econômico-financeira

Dominam hoje o campo das ciências sociais aquelas correntes pós-modernistas ou associadas que, baseadas num pressuposto filosófico irracionalista, afirmam a completa incapacidade do pensamento racional dar conta de compreender a lógica da dinâmica da vida social, já que esta seria natural e inevitavelmente dotada de uma contingência absoluta. Admitindo a correção destas pontos de vista, toda crítica que se proponha a apresentar meios para a superação da ordem social atual não passaria de um conjunto de construções arbitrárias da imaginação incapazes de reivindicar para si qualquer fundamento objetivo.

Por outro lado, nós, os minoritários partidários da ciência social crítica, continuamos afirmando que é plenamente possível apreender as determinações fundamentais da estrutura e da dinâmica social capitalista contemporânea, identificar suas contradições e apontar para os fundamentos de suas superação. O fundador da ciência social crítica, o alemão Karl Marx, foi capaz de redigir, ainda na segunda metade do século XIX, as linhas que seguem abaixo, nas quais descreve os princípios a partir dos quais o capital financeiro torna-se elemento e combustível para o desenvolvimento de crises econômicas como as que testemunhamos hoje.


Em um sistema de produção em que toda a trama do processo de reprodução repousa sobre o crédito, quando este cessa repentinamente e somente se admitem pagamentos em dinheiro, tem que produzir-se imediatamente uma crise, uma demanda forte e atropelada de meios de pagamento.

Por isso, à primeira vista, a crise aparece como uma simples crise de crédito e de dinheiro líquido. E, em realidade, trata-se somente da conversão de letras de câmbio em dinheiro. Mas essas letras representam, em sua maioria, compras e vendas reais, as quais, ao sentirem a necessidade de expandir-se amplamente, acabam servindo de base a toda a crise.

Mas, ao lado disso, há uma massa enorme dessas letras que só representam negócios de especulação, que agora se desnudam e estouram como bolhas de sabão, ademais de especulações sobre capitais alheios, mas fracassadas; finalmente, capitais-mercadorias desvalorizados ou até encalhados, ou um refluxo de capital já irrealizável. E todo esse sistema artificial de extensão violenta do processo de reprodução não pode corrigir-se naturalmente.

O Banco da Inglaterra, por exemplo, entregue aos especuladores, com seus bônus: o capital que lhes falta impede que comprem todas as mercadorias desvalorizadas por seus antigos valores nominais.

No mais, aqui tudo aparece invertido, pois num mundo feito de papel não se revelam nunca o preço real e seus fatores, mas sim somente barras, dinheiro metálico, bônus bancários, letras de câmbio, títulos e valores.

E esta inversão se manifesta em todos os lugares onde se condensa o negócio de dinheiro do país, como ocorre em Londres; todo o processo aparece como inexplicável, menos nos locais mesmo da produção.

[MARX, Karl. O Capital, Volume 3, Capítulo 30, “Capital-dinheiro e capital efetivo” (fragmento).]

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