quarta-feira, 14 de janeiro de 2009

A sociologia, a crise e o silêncio


A presente crise econômica internacional, como não poderia deixar de ser, tem remexido em áreas que, em princípio, não estariam imediatamente relacionadas à esfera econômica stricto senso. Uma destas áreas é a do pensamento. Para além da questão que vem sendo colocada em relação à crise do pensamento neoliberal ortodoxo, gostaria de fazer uma reflexão sobre um outro aspecto: a relação entre a crise econômica e a sociologia enquanto ciência.


É possível concordar com Georg Lukács – e eu sou um dos que concordam – quando ele afirma que a sociologia nasce enquanto vertente do pensamento na Alemanha (mas não apenas lá) como uma reação de corte burguês ao empreendimento intelectual iniciado por Marx e Engels dedicado a buscar compreender e explicar o “ser social” com base nos fundamentos do materialismo e da dialética (que, em si, pressupõe a história). Do ponto de vista de Lukács, é por isto que a sociologia nascerá como uma tentativa de compreender e/ou explicar a vida social prescindindo da economia (enquanto área de atividades da vida humana).


Entendo que, mesmo concordando com Lukács, não é necessário e nem desejável descartar a sociologia enquanto projeto científico em função deste seu “vício de origem”, o fato é que em nossos dias, o caráter, por assim dizer, anti-econômico da sociologia se expressa com uma força impressionante nos meios acadêmicos. Acredito que esta seja, provavelmente, a causa do constrangedor silêncio da maior parte dos “figurões” daquilo que Clóvis Moura chamou de “sociologia acadêmica” diante da crise econômica mundial que vem se estabelecendo e se aprofundando.


A orientação de construir a sociologia como uma ciência que estuda a vida social apenas a partir do âmbito cultural, político ou da articulação entre ambos, excluindo qualquer consideração sobre a dinâmica da atividade econômica, tem desarmado a nossa ciência (e grande parte de nossos cientistas) para enfrentar os desafios cognitivos relativos à compreensão/explicação do mundo social, o que, por sua vez, tem marginalizado a sociologia frente a “grande ciência social”: a economia (também, por sua vez extremamente empobrecida e precarizada em sua vertente dominante).


A abordagem culturalista e politicista hegemônica na sociologia contemporânea precisa ser rapidamente revista se quisermos garantir algum papel efetivo à nossa ciência na vida real. A integração da vida econômica nos estudos sociológicos é um empreendimento tão necessário quanto plenamente possível, como o prova a trajetória de grandes nomes da sociologia: Florestan Fernandes (principalmente aquele da “Revolução burguesa no Brasil”), Octavio Ianni, Rui Mauro Marini, Francisco de Oliveira, etc. Só para ficarmos no Brasil.


Não é necessário concordar com os marxistas ou filo-marxistas e atribuir à economia o papel de determinante em última instância da vida social, mas excluir a esfera econômica da análise do social é condenar a sociologia à esterilidade intelectual e prática.

7 comentários:

George Gomes Coutinho disse...

Maycon,

Sou fã do velho Lukács e já trabalhei algo dele para um livro há tempos atrás.

Mas embora considerando um gênio este não está fora do ciclo daqueles que falam asneiras. Como esta, a de que a sociologia é uma resposta "não econômica" e burguesa à dupla sagrada Marx e Engels. Já tinha lido antes que o velho Lukács considerava a sociologia uma ciência que representa em si a "decadência" da burguesia. O que é um pouco mais sofisticado do que a afirmação que você nos chama a atenção.

A grande questão é que faticamente essa afirmação lukacsiana não se sustenta. Mauss, Durkheim, etc, produzem sobre questões díspares envolvendo desde a divisão do trabalho social e da dádiva... o que ajuda a explicar a vida social material moderna e tradicional.

Weber, no seu clássico "Economia e sociedade" ou mesmo na ética, perpassando pelo "objetividade das ciências..." (que é um artigo para uma revista de Economia e Políticas Sociais!, trabalhou exaustivamente com a reprodução da vida social.

Todavia o que este buscou foi refutar o "vício de origem" que é esta famosa "última instância" que condena apriori e peremptoriamente, como se fosse um dogma, praticamente toda ação humana aos interesses classistas.


Abçs!

george

Maycon Bezerra de Almeida disse...

É George o problema que estou apontando é justamente este, considerar uma tarefa cumprida quando, na verdade, ela sequer foi iniciada. Senão vejamos, tomemos o exemplo de Durkheim para quem a sociedade é “uma ordem moral”, a divisão do trabalho social aparece para ele como o que há de fundamentalmente relevante na economia moderna para a compreensão da vida social. Existem sim, algumas considerações sobre a pauperização dos trabalhadores fabris e sua condição de trabalhador “alienado” (para usar um vocabulário marxiano), mas nada sobre a lógica da dinâmica da atividade econômica, seu desenvolvimento, seu fundamento capitalista e suas relações com as estruturas e dinâmicas da vida social. De que serve para uma sociologia que se pretenda uma ciência apta a compreender e explicar a sociedade contemporânea, a constatação de que no capitalismo existe uma intensa divisão do trabalho social? Considerarmos isto satisfatório não seria indício de um problema?

Quanto a Weber, entendo que o problema é ainda mais profundo, o sociólogo alemão herdou da ciência econômica burguesa (mas não apenas dela) o método individualista que o levou a considerar a idéia de ser social uma mera abstração, sendo uma realidade objetiva apenas o indivíduo e suas ações (entre elas as “ações sociais”). Se a sociedade – o ser social – sequer existe objetivamente é absolutamente vã, deste ponto de vista, qualquer tentativa de buscar compreender as implicações que a objetiva organização do trabalho coletivo (economia) possa ter na dinâmica de auto-construção do objetivo ser social.

Entendo que o problema continua George, o que você acha a respeito da posição da ciência sociológica contemporânea diante das dinâmicas efetivas da crise, por exemplo? Você compreende, assim como eu, que existe um certo silêncio impotente de nossos mentores da academia? Quais seriam suas causas?

No que diz respeito à determinação em última instância da economia, acho que já é o momento de evitarmos a confusão entre Marx e Althusser. Sugiro para evitar esta leitura mecanicista do materialismo de Marx, a “Ideologia Alemã”. No mais, sigamos o debate. Um abraço!

George Gomes Coutinho disse...

Olhe Maycon,

Me sinto absolutamente a vontade com suas questões, até porque já tentei ponderar muitíssimo sobre elas.

Vou por partes:

a) Você faz questões para os autores que só podem ser compreendidas e/ou respondidas dentro de critérios de validação internos ao materialismo histórico. Isto certamente é vício de origem pois não reconhece as hierarquias valorativas inerentes a qualquer posicionamento científico. Ou seja, "o que eu acredito é ciência, o que os outros fazem é pós-modernismo". Desta forma o diálogo é inviabilizado pois só há "uma forma de se fazer ciência legítima". As outras são conto da carochinha. Não é?

b) Dizer que a obra de Durkheim se resume ao estudos sobre a divisão do trabalho social é no mínimo má vontade com o autor. Citei esse problema para demonstrar que a posição de Lukács é faticamente insustentável (o abandono da economia pela sociologia). Dogmática pois renega critério de validade para qualquer coisa que não seja o materialismo histórico. E ideológica em sentido marxiano, se nos ativermos ao sentido epistemológico aqui, que é o de falsa consciência.

c) Durkheim com o debate sobre a moral elabora uma importante chave explicativa para entendermos como as sociedades se mantém. Isto me parece fundamental para a sociologia enquanto ciência pois nos inaugura um campo de estudos rico em objetos que seriam meramente "ópio do povo", ou seja, condenados como "lixo burguês" por um programa de estudos "materialista". Vide a religião e o maravilhoso "as formas elementares da vida religiosa";

d) Você fez uma salada epistemológica com Weber. E sem querer fornece lenha no forno das críticas do autor ao confundir conceitos e análises com realidade "objetiva". Weber fez essa crítica à noção de ciência reificada que há no positivismo e no marxismo: confunde-se conceitos com o real! O modo de produção é um conceito, por exemplo... E não entremos naquele pastiche confuso e pouco convincente do "concreto pensado" porque todo conceito é maquinação humana. E não substitui o real... Os conceitos são reduções de complexidade sobre o real.

e) Você reduziu o manancial de fontes teóricas sobre Weber Recomendo ler "Crítica e Resignação" de Gabriel Cohn que faz um retrado fidedigno do caminho teórico realmente trilhado pelo autor;

f) Mesmo assim sua posição coloca mais uma vez a afirmação de Lukács por você selecionada na lama. Afinal, se Weber dialogava com o individualismo metodológico, ora, ele estava entranhado do pensamento econômico. Não é? Sociologia 2 X 0 Lukács. Ou só é economia e pensamento econômico o que está nos volumes do Capital?

g) Você adentrou em um terreno absolutamente pantanoso, que é apostar em uma narrativa ontológica. Porque o "ontos" humano é derivado do trabalho e não por outras coisas, como a política, o riso, a comunicação, o sexo? O determinismo ontológico para a sociologia séria deveria ter sido banido desde que os primeiros trabalhos de campo antropológicos demonstraram o quão absurdo e totalitário é apostar em "ontologias" a despeito da forma como os agentes se auto-interpretam. Certamente o "ser social" é das construções mais pérfidas de um Lukács gagá, senil, que apenas funcionam para olhar o real "com um olho só", ignorando solenemente todas as outras posições e possibilidades.

h) Voltando ao Weber, o debate sobre os fundamentos da dominação racional-legal envolve um entendimento global do trabalho coletivo. Recomendo mais uma vez conhecer a obra do autor, particularmente o "Economia e Sociedade";

i) Não creio que exista uma "ciência sociológica". Há matizes sociológicos em uma ciência que vive sempre os debates inter-paradigmáticos. Nestes termos ninguém tem o direito de se pronunciar "em nome da sociologia" na medida em que isto não é possível. Mas, agrupamentos de autores discutem há muito os problemas de uma economia desregulada, os riscos do capital financeiro, etc.. Parte dos sociólogos sérios já cantaram a pedra antes... Portanto não sei se a sociologia (ou qualquer outra ciência humana) deva ser acusada de omissão neste momento de crise.

j) Acho também que nem todos programas de pesquisa devam ser pautados com o que é dito no noticiário;

Por fim acho que muito do que Althusser produziu de interessante foi renegado justamente por parte dos marxistas, que ao não lerem o próprio (como é praxe entre os marxistas brasileiros), colocaram toda sorte de acusações sobre o autor. Enquanto que na verdade os problemas epistemológicos estão no próprio Marx, como no texto por você indicado...

Abçs e devemos prosseguir sim.

George

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Em função do pouco tempo lamento que talvez tenha de ser esquemático demais sem me aprofundar na discussão de forma correspondente ao nível que suas questões mereceriam, de qualquer forma, vamos lá:


a) As questões apresentadas aos autores são as questões colocadas pela realidade da sociedade capitalista contemporânea, e não por mim arbitrariamente, se os critérios de validação inerentes aos constructos discursivos dos autores, os impedem de responder às questões ( e esta é a visão que eu tenho), sinto muito, à ciência cabe avançar no desvelamento do real, superando os seus limites.

b) Em nenhum momento eu disse que a obra de Durkheim se resume à questão da divisão do trabalho social, o que afirmei é que no que tange à interação entre economia e sociedade, sua contribuição reside, fundamentalmente, nesta questão.

c) Concordo que os estudos no campo da moral são extremamente relevantes, mas discordo que as discussões de Durkheim sobre o tema possam ser consideradas paradigmáticos ou fundamentais, principalmente porque esta questão foi resolvida de modo muito mais profundo bem antes dele, pois é, com Marx e Engels.

d) A crítica de Weber não é a noção de ciência do positivismo (sob alguns aspectos é, ele mesmo, bastante positivista, principalmente no que se refere à questão da possibilidade de “neutralidade axiológica” na produção científica) é, isto sim, um ataque à cognoscibilidade racional do real baseada na filosofia irracionalista neo-kantiana alemã. Diferentemente de Weber, e ao lado da tradição marxista, entendo que o conhecimento científico (racional) é capaz de avançar progressivamente na apreensão das complexas determinações objetivas do real entendido enquanto totalidade. Apreender o conceito de uma determinada realidade é apreender o sentido de seu desenvolvimento.

e) Em nenhum momento eu afirmei que a economia burguesa (marginalista) era a única fonte de referências de Weber.

f) Weber, de fato, incorporou a noção metodológica do individualismo própria ao marginalismo. De um lado, isto não representa grande mérito, pois a economia marginalista, para além de um nível não muito complexo da micro-economia, é absolutamente caricata, e, por outro lado, apreender o método de uma das vertentes da ciência econômica é algo muito distinto de garantir às estruturas e processos reais e dinâmicos da economia um lugar adequado na explicitação do ser social.

g) Independentemente de como os agentes se auto-interpretem, eles antes precisam existir. Aqui reside a ineliminável superioridade da perspectiva ontológica. Voltando a Marx, a consciência é existência consciente. O ser social está fundamentado, em última instância, no trabalho simplesmente porque os seres humanos precisam garantir a sua existência material através da interação produtiva com o meio e entre si como condição para fazer política, rir, se comunicar, e fazer sexo.

h) A noção de que a economia capitalista conduz a sociedade no sentido de uma racionalização é absolutamente míope ao não considerar, ao lado da racionalização do processo produtivo, a irracionalidade intrínseca ao mecanismo do mercado.

i) Reconheço com você a pluralidade quase infinita de perspectivas sociológicas e, muitas vezes, a ausência de consensos mínimos, com polêmicas que vão do epistemológico ao técnico, no entanto, as lamento, e não as celebro. Entendo que aí está a maior debilidade da sociologia enquanto ciência, pois a não-resolução de questões fundamentais para qualquer empreendimento científico, como por exemplo, a razoabilidade, ou não, de considerar cognoscível a realidade, nos paralisa. O maior problema da ausência de uma sociologia pujante que se proponha a compreender e explicar as estruturas e dinâmicas da sociedade em sua totalidade, é ficarmos reféns do unilateralismo débil da vertente dominante da economia. Já houve tempo neste país em que os sociólogos forneciam a linha mestra de condução das pesquisas sobre os rumos da sociedade brasileira, inclusive, aos economistas.

j) Acho que os programas de pesquisa devem ser pautados não pelo que aparece no noticiário, mas sobre o que afeta em profundidade a vida de bilhões de seres humanos, como por exemplo, a crise econômica mundial que avança.

Um abraço!

Roberto Torres disse...

Só queria poderar algumas coisas nesse debate.

1) Maycon, acho que voce está coberto de razao em defender que a sociologia deve ser materialista. Só que eu acho que voce, curiosamente, fica muito preso é uma má vontade com a sociologia, numa ansia por defender uma tradicao do "pensamento marxista". Uma leitura generosa da sociologia, tao generosa quanto a que voce faz de Lukacs ao achar que ele teria avancado alguma coisa a mais em direcao a uma sociologia da economia do que a sociologia clássica, vai te mostrar que:

1) Marx nunca conseguiu fazer sociologia, embora tenha chegado perto. O que faltou? Faltou uma teoria do agir social baseada numa teoria da socializacao e do aprendizado das normas sociais. Tudo isso Marx resolve com uma teoria ontológica do ser social, que nunca consegue criar categoriais empiricamente mediadas para uma análise do agir. Porque os indivíduos jogam o jogo do capital? Porque eles precisam comer e ficar vivos...? convenhamos que é muito pouco....

Durkheim realmente ignorou a teoria do capital, mas dizer Engels e Marx analisaram melhor a integracao social é completamente descabido... Pelo amor de quem quer que seja.... Marx foi um filósofo da economia.. ele nao elaborou uma projeto de investigacao sociológico, embora tenha escobaco algo parecido com isso.

O "pecado" de Weber em romper com a filosofia hegeliana nao pode servir de desculpa para le-lo com má vontade também.. Neutralidade axiológica em Weber em nada o aproxima do positivismo. Isso é algo muito reducionista, dito naquele livrinho do Michel Löwy. Netralidade axiológica significa apenas que a juizo sobre como a realidade funciona deve visar o valor da verdade, de como as coisas sao, mesmo que essa descricao contrarie o desejo sobre o dever ser.

Além disso, em toda a sociologia da religiao de Weber, o conceito de modo de producao ocupa uma papel absolutamente central, além de ele sofisticar e desenvolver muito bem o modelo de consensos e conflitos de acordos com esses interesses e os modos de legitimá-los.

E se voce ler Pierre Bourdieu, verá a maior tentativa de juntar materialismo filosófico (Marx), e sociologia.. verá que a idéia de uma "economia das trocas simbólicas" leva Marx ao campo da análise empírica e realista da vida social (Marx nao analisou a vida social com teoria social. Ele vai a Marcel Mauss e nos mostra que a teoria da dádiva pode ser uma teoria materialista das trocas simbólicas, na medida em que o valor social se expressa nos habitus de classe e nos campos de disputa por bens valorosos. O próprio Bourdieu tem uma definicao da economia como fato social total. Isso sem falar do que hoje chamamos de nova sociologia economica...a qual eu nao conhece bem.. o que nao podemos é pretender que dógmas filosóficos sejam seguidos inarticulamente como critério de condenacao ou reconhecimento na ciencia.

Maycon Bezerra de Almeida disse...

Caro Roberto, é com satisfação que saúdo sua participação neste debate, que cada vez mais se torna interessante. Existem algumas questões com relação à nossa polêmica que eu gostaria de explicitar e esclarecer.

Em primeiro lugar, gostaria de manter a defesa da posição de Lukács quando se refere ao projeto sociológico em seu primeiro momento, com Comte e Spencer, não há como negar que há ali uma verdadeira obliteração da economia e, complementarmente, a introdução da lógica das ciências naturais como forma de explicar e compreender a vida social.

Com Durkheim e Weber (para ficar neles), o que ocorre é uma espécie de culturalização da economia, sobre a qual direi algo mais a frente. De forma alguma eu rechaço a sociologia em bloco, ao contrário, me identifico orgulhosamente como sociólogo. Enquanto tal, sou daqueles que entendem a importância de afirmar a diferença entre coerência teórico-epistemológica e dogmatismo, mesmo porque só a primeira é capaz de combater com eficácia o segundo, uma tarefa para a qual o ecletismo teórico e filosófico não pode dar resposta.

Voltando a Lukács, eu não entendo que tenha dado alguma contribuição particular ao desenvolvimento da sociologia econômica, enquanto filósofo entendo que sua obra é capaz de fornecer grandes contribuições à sociologia do conhecimento e da cultura (enquanto disciplinas específicas), mas sua “ontologia” aprofunda questões extremamente ricas para a ciência do social em seu conjunto.

Concordo com você que Marx não realizou sociologia à moda de Weber, Durkheim, Bourdieu e etc, mas não porque não tenha conseguido, mas sim porque nunca se propôs a isto, sendo seu projeto, em muitos aspectos, contrário ao modo como a sociologia se institucionalizou. Marx também não foi um economista especializado, foi um crítico da economia política, o que é bem distinto e revela muito do projeto científico de Marx, este se propunha a contribuir na construção de uma ciência da sociedade entendida como totalidade e, dialeticamente, inserida no conjunto da vida natural. Esta é a grande diferença entre a, vamos dizer assim, “ontologia do ser social” de Marx e a sociologia tal como se institucionalizou em sua vertente hegemônica. Tanto Weber como Durkheim fazem questão de deixar claro que a sociologia que se dedicam a construir é uma ciência especializada ao lado de outras, no estudo do social. Dito isto, afirmo que a sociologia ainda é um projeto em disputa e o pensamento marxista se coloca neste campo em disputa.

Novamente concordo com você quando diz que Durkheim se dedicou de modo muito mais intenso à questão da integração social que Marx, no entanto, o que afirmei no comentário anterior é que a linha de pensamento de Marx, principalmente na forma que aparece na “Ideologia Alemã”, corresponde muito mais à realidade social, ainda que resulte de um estudo menos intenso, que as conclusões de Durkheim. Digo isto não assentado em qualquer pretensa filiação dogmática ao marxismo, mas sim na racional convicção de sua superioridade interpretativa e explicativa, e não acredito que a ausência de convicções – desde que criticamente estabelecidas - seja um avanço.

Gostaria de retomar agora a questão da culturalização da economia tal como se dá na sociologia hegemônica. O projeto sociológico tal como desenvolvido por Weber ( e Weber é paradigmático) é capaz de dar contribuições importantes, no entanto, reflete um percurso intelectual muito semelhante ao que se dá no âmbito da economia marginalista burguesa. Estabelecendo seu enfoque no aspecto da motivação da ação individual, tanto a sociologia weberiana como a economia marginalista, são capazes de fornecer algumas pistas interessantes e produtivas no que se refere ao âmbito da micro-sociologia e da micro-economia, respectivamente, no entanto, uma vez aplicados seus pressupostos ao âmbito da macro-sociologia e da macro-economia, revela-se toda fragilidade do culturalismo da primeira e do apriorismo da segunda. Quando não são defendidas aguerridamente na sua forma pura, a sociologia weberiana e a economia marginalista buscam complementos, em geral, eclética e precariamente incorporados, seja no marxismo ou funcionalismo – caso da primeira – seja nas diversas teorias do valor-trabalho – caso da segunda – para aventurar-se fora do campo dos micro-estudos (bem compreendidos como micro-sociologia e micro-economia).

O curioso é que , nos meios acadêmicos, dificilmente se repete a intransigência à construção teórica da determinação em última instância quando não aparece na forma marxista. Ou seja, a determinação em última instância da organização do trabalho coletivo sobre a vida social é um anátema, mas a determinação em última instância da cultura tal como aparece na “ciência do espírito” weberiana é plenamente aceitável. É preciso ir a fundo e discutir porque a cultura, e não a economia, determina a vida social em última instância para que possamos fugir da falsa polêmica em torno do suposto “unilateralismo economicista” de Marx já que, um unilateralismo culturalista pode ser encontrado como base da “ciência do espírito” da ação social weberiana. Se é certo que tudo o homem faz tem de passar primeiramente por sua cabeça (tal como na elaboração de Engels), não é menos certo que tudo o que passa pela cabeça do homem tem de passar também por suas “mãos” (como o prova, por exemplo, a antropologia evolucionista e a psicologia cognitivo-comportamental ).

Uma última questão em relação ao tema em questão é a seguinte: até que ponto o culturalismo sociológico não tem de incorporar, necessariamente, o agnosticismo epistemológico tal como acontece em Weber? Ou seja, se a sociologia deve entender que o indivíduo (e sua ação) é o único ponto de partida científico válido, o que leva (de modo mais ou menos explícito) a um abandono da investigação do processo de constituição social deste mesmo indivíduo (resultado do conjunto de suas relações sociais, de acordo com Marx), até que ponto a sociedade (enquanto “ente” ou ser) não tende a desaparecer na forma de uma construção abstrata? E se a sociedade é uma construção abstrata (sendo concretos apenas os indivíduos) não é inevitável reconhecer que estamos diante de uma concepção agnosticista de ciência que coloca “entre parêntese” a própria existência de seu objeto (tal como algumas vertentes da física teórica)? E se reconhecemos que o agnosticismo se tornou base fundamental das vertentes hegemônicas do projeto sociológico (vamos dizer assim), não é lícito temer por um aprofundamento de sua crise no âmbito de um crescente (ainda que involuntário) irracionalismo epistemológico?

Entendo que é importante que nós sociólogos tenhamos clareza da, infelizmente não suficientemente discutida, distinção de níveis (micro e macro) da análise sociológica porque uma vez visualizada adequadamente esta distinção pode ser muito útil para revelar a potencialidade e os limites das diferentes vertentes do pensamento sociológico.

Um abraço!

Roberto Torres disse...

Maycon, voce coloca questoes realmente difíceis e por isso mesmo vou me concentrar por enquando só em uma delas. Discordo que Weber seja um culturalismo e haja nele qualquer determinacao da cultura em última instancia, embora o conceito de cultura seja por ele usado de modo vago. Na verdade, eu acho que cultura nao é um conceito, a comecar pela quase impossibildide de dizer o que ele abarca e o que ele nao abarca. E um termo do senso comum erudito que a sociologia infelizmente usa de modo inadvertido. O meu negócio nao é defender Weber simplesmente, mas sim defender que ele buscava,ainda que de modo equivocado com o individualismo metedológico, uma concepcao de que a determinacao da acao se pauta em formatos cognitivos sobre o mundo, em hierquias de valores... Dizer que essa hierarquia é cultura é empobrecer o potencial a analítico da idéia. O melhor caminho, julgo eu, é buscar entende-la como uma hierarquia de valores intrinseca ao que chamamos de economia. Com o capital, Marx buscava uma teoria do valor capaz de criticar a idéia de que na troca a mercadoria se constitui enquanto valor. Com o conceito de mais valia relativa Marx descobre que o trabalhado socialmente valorizado, em termos de qualidade posta em exercício no tempo, é o critério de determinacao do valor das mercadoriais e dos homens. Aceitar que essa relacao entre tempo e trabalho é ontológica é esquecer a história e desconhecer que durante a maior parte das épocas o tempo da mais valia relativa sequer existia. Foi preciso um revolucao no "saber poder" para que o trabalho se tornasse mensurável de acordo com o seu desempenho no tempo. Esse saber poder está acoplado em todas as insituicoes da economia, e incorporado sobre a forma de capital cultural nos indivíduos... o conceito de habitus de Pierre Bourdieu rompe com dualidade entre a cabeca e as maos, indo a pressupostos filosóficos tao mais ricos quando menos ontologizantes.